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Aly Muritiba: Cinema é coisa de angustiado

Fazer cinema independente e sem dinheiro é um exercício angustiante. Apesar de ter um estômago de avestruz prevejo uma morte lenta e dolorosa para mim em decorrência de complicações gástricas. Isso porque o amor que devoto ao cinema é daqueles românticos, daqueles que só podem acabar em tragédia. Exagero? Vejamos então.

Angustia número 1: Antes de se fazer um filme, o pretenso cineasta passa pela angústia de não estar fazendo nada a não ser olhar uma folha em branco. São dias e dias lapidando um roteiro, que depois de pronto e julgado brilhante pelo seu autor, será submetido ao crivo dos possíveis colaboradores (amigos). Neste momento começa a

Angústia número 2: As pessoas recebem o texto, dizem que vão ler e a isso se sucedem semanas de angustiante silêncio. Pensa-se, “eles odiaram, eu sou um escritorzinho de m.” etc. Até que se encontra os tais colaboradores bebendo num boteco e descobre-se que o roteiro não foi lido porque -xi, meu PC queimou, manda outra vez. Ou -recebi, mas não abriu, manda num outro formato…e por ai vai. Passada esta etapa, que é a de convencer as pessoas a trabalharem de graça no teu projeto, começa a fase da

Angústia número 3: Fazer com que os colaboradores (amigos), que trabalham de graça no teu projeto, convençam outras pessoas (desconhecidos) a também trabalhar de graça. A esta etapa chama-se comumente de Pré-produção. Eu prefiro chamar de fase da angústia número 3. É a etapa em que pessoas bem vestidas experimentam a sensação da mendicância. Pede-se tudo, oferece-se quase nada, e a probabilidade de receber nãos é tão grande, que é recomendável pedir apoio de alguma farmácia para o fornecimento de paracetamol, gastrox e afins. São semanas e semanas de reuniões, planejamentos, cafés, sorrisos, testes, persuasão, caça a atores experientes o suficiente para o papel dispostos a trabalhar “-por amor a arte Sabe como é? “. E eis que chega o grande dia, quer dizer, semana.

Angústia número 4: O primeiro dia de gravação é sempre o pior (pelo menos pra mim). Parece que tudo vai dar errado. Planeja-se uma externa, o céu ameaça chuva. Planeja-se uma interna, o refletor queima. Até a maquilagem que aquela tua colaboradora (amiga, amante, mulher, irmã… avó?) ficou de emprestar, é esquecida. Ai é que o verdadeiro diretor é posto à prova. Se der “piti” e adiar as filmagens por causa da maquilagem (entendam metaforicamente), sem futuro…, a equipe o abandona. Se não der “piti”, sem futuro muito longo, morrerá de gastrite. Os bons diretores têm gastrite. Kielowsky, Kurosawua, Glauber, Buñel, Ozu e tantos outros tiveram. Eu e alguns colegas nos entupimos de café na esperança de adquirir uma e entrar pro panteão. Mas continuando… adapta-se, muda-se os planos, as ordens do dia, as decupagens (pra que fazer pré?) e as gravações terminam, e começando a

Angúsita número 5: Esta fase é de matar. Neste momento descobrem-se os planos não filmados, os erros de continuidade, a falta de rítimo, etc. E o roteiro que foi escrito com tanto esmero é reescrito por um cara estranho chamado editor (o cara que faz o que pode e o que não pode para o filme não parecer um exercício de doidos). E o som? Sabe quantas horas se passa num estúdio improvisado mixando o som de um filme (e olha que eu nunca fiz um longa)? Ai o diretor tem que decidir entre 198 opções qual é o rangido de porta perfeito para a cena em que a mocinha sai do banheiro. Ai o diretor decide se o estampido do revólver deve ser mais
grave, agudo ou médio se é do ponto de audição da vitima, do algoz ou da platéia…. aff!!!! E o tratamento de imagem? Já abriram um programinha chamado After efects? Não abram sem alguém experiente por perto. Ai você descobre que aquela cena que teu diretor de fotografia disse -resolve na pós., não tem solução. Enfim, uma angústia só e que pode levar meses ou, em alguns casos, anos. E eis que o filme fica pronto.

Angústia número 6: A estréia. Fase em que o cineasta tira a roupa para um monte de gente que não faz a mínima idéia (e nem deveria mesmo fazer) das etapas anteriores. Fase em que o cineasta será julgado sumariamente por pessoas que estavam tocando suas vidas nos últimos seis meses, enquanto o cineasta sofria com suas angústias. O olhar do público, o aplauso final, o tapinha no ombro (será consolo?). O alívio. Enfim o filme está concluído. O alívio. Alívio?

Angústia número 7: Assim que termina a exibição do filme o pretenso cineasta passa pela angústia de não estar fazendo nada novamente. Ele olha então uma folha em branco e

Angustia número 1:
Alguma semelhança com a vida a dois?
Entende agora o motivo pelo qual eu amo me angustiar de cinema…. e de amor?