Nicole Lima, sobre genes defeituosos:
“Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos”
(retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros)
Dia desses uma amiga disse o seguinte: “Eu queria participar do projeto, mas eu não sou artista”. Aí lembrei do João, que disse na sua aula inaugural em uma universidade: “Fotografia não é arte.” E de uma entrevista com um fotógrafo de natureza que me respondeu quase defensivamente à mesma questão dizendo que o que fazia era apenas “documentar”. E que na semana passada me perguntaram: “Mas esse é um projeto de design ou de arte?” E hoje ainda, no msn com outro amigo, o Orlando: “você sabe, eu sou retrógrado, vivo mentalmente nos anos 20, e não estou inteiramente convencido de que cinema seja arte…” Eu poderia citar exemplos ad infinitum, até porque essa questão sobre os limites e deslimites da arte é mais velha do que todos nós. Mas não se trata disso. O que me intriga é justamente esse incômodo, essa insistência.
Quase sempre tenho a impressão de que por trás da frase “ah, mas eu não sou artista” há uma percepção de que nós artistas (sim, eu sou artista, ar-tis-ta) nascemos dotados de um gene especial 406×765hktyu-899-yy/xxx, que os outros seres humanos “normais” não têm. Assim como separamos os que nascem com orelhas de abano do time de futebol, e os que têm dentes protuberantes dos concursos de beleza, a sociedade se organiza entre os que têm ou não têm o dito “dom” da criatividade, ou a habilidade de empunhar um lápis sobre uma folha em branco e desenhar virtuosamente. Mas como sabemos que exercitar o tal gene defeituoso demanda tempo, ser artista raramente se faz uma atividade rentável. Ou seja: é melhor evitar. Aí nos agarramos na borda da piscina, para nadar onde não dá pé sem nos afogar: Quem gosta de desenhar, faz arquitetura. Quem gosta de escrever, faz jornalismo. Quem quer ser fotógrafo, estuda comunicação. Quem estuda arte mesmo só pode ser porque mora com a mãe e não quer trabalhar, coisa de vagabundo. Trabalhador que se preze tem curriculum, artista tem portifolio (e no flickr, porque imprimir custa caro).
Mas também tem, claro, o preconceito às avessas. Nas terças feiras eu dou aula particular de inglês para um juiz e para esposa. Eis o preconceito: Aulas de inglês? Mas você não disse que era fotógrafa? Em dose dupla: juiz? Argh. Esse povo acha que pode passar por cima de todo mundo, só porque é juiz. E não adianta nada eu contar pra vocês que ele é juiz mas é legal, que estuda música e vai mergulhar sempre que sobra um tempo, que vocês já vão logo rebater com um “ah, mas é exceção”. Até eu, sempre que vou prencher fichas de cadastro, nunca sei o que escrevo no item profissão: arquiteta, urbanista, professora, pesquisadora, coordenadora, fotógrafa, designer, modelo de comerciais de margarina, ex-mulher de piloto de helicóptero, escritora… Ahhhhhh, desisto. Agora faço graça: cada vez preencho com uma coisa diferente, de acordo com o meu humor ou a quem devo impressionar.
Não acredito que essa percepção do ser humano que teima em se nomear e se dividir entre ser criativo ou funcional vá mudar (pobres designers, arquitetos, publicitários, documentaristas…). Mesmo que mudasse, não seria uma evolução: continuaríamos nós mesmos, vistos de outro ângulo, já que andamos em círculos. Mas fica o convite à reflexão: quem é você e o que o torna diferente de mim?
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