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enquete: vídeo arte… faça, mas não me faça ver?

No zine 001 levantamos a seguinte questão: Vídeo arte… faça, mas não me faça ver? Quais os limites que o unem ou o separam do cinema? Todas as mostras de arte agora têm agora obrigatoriamente um kit drywall, cortina de veludo e projetor? Novas Possibilidades? Críticas? Sugestões? O que acharam dos vídeos que estavam no MAC, na Andrade Muricy e no Solar (este ainda está)? E na mostra vento sul, alguém foi?

A pergunta é mal educada, preconceituosa, e foi colocada com um alto teor de provocação. Eu poderia ter dito logo o que penso sobre o assunto e levantado outras questões, mas a intenção não era discutir o tema a partir da minha opinião pessoal (e ouvir “concordos” e “discordos”) e sim convidar ao debate, puramente. Por outro lado se eu apenas tivesse perguntado: “oi, o que você pensa sobre videoarte?” Duvido que alguém se comovesse a ponto de responder. Então, escolhi colocar dessa forma tosca, mesmo correndo risco de ser apedrejada, com o intuito de mover alguém e iniciarmos uma discussão séria.

Bom, ainda que eu tenha colecionado desafetos ao longo da semana e talvez perdido o respeito do meu colega de pós graduação para todo o sempre, fiquei muito, MUITO feliz em receber a resposta do Daniel Duda:

Como não me aguento vou me debruçar sobre o assunto mesmo sendo suspeito.

Primeiro, acho que a redação da própria enquete demonstra claramente a opinião de quem a escreveu; portanto, não quero levantar a defesa da videoarte, mas apenas questionar a natureza e o fim dessa enquete, pois talvez esses apontamentos se aplicam igualmente à fotografia e ao próprio cinema, não? Portanto, o que deveria estar em pauta é a reflexão sobre o suporte, que por sua vez carrega a questão da popularização dos meios digitais, que por sua vez, acarreta em… uma grande produção de trabalhos ruins. Em qualquer meio.

Pensei sobre a sentença “videoarte: faça mas não me faça ver” e me perguntei pq a mesma pergunta não poderia ser feita em relação ao cinema? Assim, como penso em vídeo, trabalhando e pesquisando o mesmo, mas também trabalho e vivo com o cinema, acho muito mais grave a proliferação de cine-chatos e da massificação de roteiros rasos que me obrigam a ficar 2 horas na frente da TV, vendo mais do mesmo.

Acredito que se a proposta do artista é colocar seu vídeo dentro do museu, trazendo reflexões que quase sempre são questionamentos advindos de outras formas, principalmente fotografia e pintura, apenas se utilizando do vídeo como suporte, tudo bem! Na minha opinião, a pergunta da enquete foi uma forma extremamente rude e infeliz de levantar a questão. Não entendi e
gostaria que fosse explicado melhor o que significa o “kit” sugerido. Sugere-se que o vídeo é moda? Não agrega entretenimento como o cinema, portanto, é chato?

Agora, se a intenção é entrar no museu buscando entretenimento, informação fácil, ou algo do gênero, sugiro uma das salas de cinema da cidade.

Há artistas que fazem um vídeo dentro de sua obra, e há artistas que trabalham quase unicamente com o vídeo como suporte. A mostra vento sul não deve ser utilizada como parâmetro para discutir o assunto, uma vez que não representa o que está sendo feito em video no Brasil - quem dirá em termos latino-americanos. Foi organizada por pessoas que possuem outros interesses alheios à arte, e não buscam a reflexão séria. O resultado disso foi visto.
Quer dizer, visto por poucos.

Peço desculpas se a intenção da enquete era outra, mas como artista que trabalha com vídeo, fiquei ofendido com a proposta.

Duda

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Nicole Lima, e mais dois centavos:

Bom, agora um passinho à frente por favor, que eu também preciso depositar meus dois centavos e dizer o que penso disso tudo. Aliás, venho pensando nisso já desde a ultima bienal quando escrevi: “Eram mais de 40 vídeos. Não sei se consegui apreciar uma porcentagem digna, mas acho que alguns conceitos persistem: o que não é lixo (lixo mesmo, aquele que a gente separa em casa) reciclado do Duchamp não é arte. O que não é vídeo não é arte. O que é vídeo de lixo, isso sim é arte. Mas há coisas boas. Sempre há”.

E havia: fiquei encantada com um vídeo de uma boliviana, a Narda Alvarado, que se chamava “from the atlantic with love” em que ela entregava um balde de água do mar do oceano atlântico para oficiais da marinha do oceano pacifico, em cerimônia solene. Mas o que mais me intrigou foi que, além do vídeo, ela apresentou uma série de idéias (good ideas, bad ideas, reasonable ideas), algumas eram sugestões de performance e outras de vídeo, em forma de pequenos quadros pintados que ela pendurou na parede assim:narda-alvarado.jpg

O trabalho de Narda me fez ter vontade de ver/fazer as idéias que ela propõe, mas em um segundo momento pensei: pra que? Cairia no que o Duda colocou: entretenimento. E por isso achei genial que ela tivesse “não feito” as próprias idéias. Porque a maioria não ultrapassa a execução da proposta inicial: vamos fazer um vídeo sobre uma mulher comendo uma santa de chocolate? Sim, faça, mas aí eu vou entrar, ficar (talvez) um minuto, sentir náusea e sair. De qualquer forma, parabéns, já acho genial ter sido algo de que eu me lembre até hoje.

De fato, há poucas coisas que realmente sinto vontade de ver até o fim, até por saber que não vai me mostrar nada do que já não tenha ficado claro nos primeiros 30 segundos. Ou será que vai? Mas aí vem outra questão que ontem mesmo o Ricardo Machado levantou: se não tiver nada de bom no começo, nem o curador vai ver até o final. Porque quando a gente vai ao cinema, já se preparou: leu a sinopse, sabe que o filme é uma comedia romântica com o Hugh Grant, gosta do Hugh Grant, escolheu o horário, a companhia, estacionou o carro, pagou e foi ao encontro daquela historia, que vai assistir sentado, comendo pipoca em uma sala escura e com tratamento acústico adequado. Mas se eu faço um vídeo e coloco em uma exposição de arte, eu tenho que pensar o espaço e o espectador de outra forma. Primeiro porque ele não está esperando o que vai encontrar, e isso pode ser usado contra ou a meu favor. Segundo, porque se houver muitas pessoas em volta, fazendo fila pra entrar em um cubiculozinho de drywall com uma tela de plasma e um banquinho, duvido que alguém pare pra ver. E aí entra o tal kit: porque se eu entregar só um DVD, e eles mostrarem como se fosse um quadro na parede, e se eu não pensei nisso, azar o meu (vocês já cronometraram quanto tempo passam diante de um quadro na parede?). O terceiro e último ponto, é justamente em relação ao tempo, que aqui é o tempo do expectador. Um vídeo impõe sobre o expectador um ritmo de leitura: se negligenciado, pode ser rápido demais, ou lento demais, ou longo demais, ou não deixar espaço para pensar. Em inglês há uma expressão que se chama “captive audience” pra designar situações em que temos que ouvir alguém falar sem poder sair. Mas aí, como disse o Felipe Prando, que eu importunei outro dia com esse mesmo pensamento: problema seu, a obra é a obra, lê e vê quem realmente quer. Pode ser, pode ser. Mas agora, já que o Duda veio aqui e falou, mesmo suspeita, também vou falar: O trabalho dele, que está no Solar é um exemplo de como o espaço de projeção foi concebido em conjunto com a produção dos vídeos. Há um percurso, há uma questão e ele me faz caminhar até lá e ouvir tudo até o final (porque “o risco, também é uma ilusão”).

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Duda, em resposta, em 05 de maio de 2008:

Aeeee Nicole

Se eu soubesse que vc ia me publicar eu penteava meu cabelo antes…
Primeiro, é óbvio que nós continuamos amigos. Segundo, de fato se voce colocasse a pergunta de outra maneira meu cérebro nem ia terminar de ler a sentença. Terceiro - e eu devia ter dito isso no primeiro email mas achei que já estava longo e chato demais - é óbvio que eu concordo com quase tudo que voce colocou, até pq eu tambem acho que boa parte do que é feito em video hoje é chato e poderia ser feito de uma maneira menos sacal.Também
acho que quase sempre o visitante não está disposto a despender o tempo que o artista requer para assistir o video até o final, e isso acaba no problema do suporte: será que o artista não deveria ter feito um filme? ou quem sabe apenas tirado uma fotografia (menos é mais, já dizia a Milla…).

Mesmo assim acho que a última coisa que deve ser limitada ou reformada de alguma forma é o processo criativo. Mesmo que o público não dedique o tempo necessário para assimilar a obra, imagino que não será esse fator a determinar que o autor transfigure sua obra para algo mais “palatável”. Enfim, acho que temos as mesmas preocupações, e podemos continuar amigos…

Duda

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Nicole, em resposta, em 05 de maio de 2008:

Oi Duda!
hehehe
ufa
:)

eu já sabia que ia gostar do seu primeiro email, mesmo antes de ler, só por eu ter conseguido fazer com que vc se importasse a ponto de responder. Porque se vc se importa, e eu me importo: pronto.

o seu trabalho realmente me marcou, eu ja tinha comentado isso com você e com varias pessoas, mas nem é só o “gostei ou nao gostei”, é o como vc fez a gente chegar até lá. Vc tem razão quando diz que a maioria das coisas se resolveria com uma unica imagem. (good ideas, bad ideas, reasonable ideas), fora as coisas que nem precisam existir, mas essas a gente deixa pra lá e continua passando batido, como bons cidadãos.

Além disso, tem muita coisa que na minha opiniao está mais pra documentario da obra ou do artista, do que para a obra em si. Acho valido em casos como o Yves Klein — que está morto e não pode refazer a performance dos quadros de fogo, ou das mulheres pincel — mas há outros em que fica meio didático, e se a obra está ali, precisa de um video para explicar? ok, pode ser que precise, entao que incorporem, ao invés de separar. como eu disse: pode ser, pode ser. TUDO pode ser (bom ou ruim, dar certo ou dar errado).

Sobre ser palatável, naaaaaaaao, claro que nao, mas precisa comunicar, e para isso eu preciso acessar o meu interlocutor. se a minha obra é um video e ninguém viu, nao houve comunicaçao, então a minha obra nao existe.

o processo de quem é realmente criativo nunca vai se limitar ao suporte. Talvez se limite ao incentivo $$, mas isso dá pano pra outra enquete…

:)

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