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Fritando Bacon

Por Nicole Lima

Hoje, no Caderno G, me deparo com a seguinte matéria, na coluna de Elio Gaspari: “Uma grande semana para a boa pintura”

Ponho-me a ler com natural entusiasmo, mas a decepção vem já na metade do primeiro parágrafo: “Quem viu o primeiro “Batman” haverá de lembrar. Bacon é o autor daquele quadro que o Coringa (Jack Nicholson) não deixa destruir durante seu ataque ao museu de Gotham City.”

Batman? …Ok, você vai dizer que Bacon não é nenhum Leonardo da Vinci, que bem mais gente assistiu aos filmes do Batman do que foi a museus. Concordo, vá lá. Mas justamente por isso: Se você se propõe a escrever uma coluna sobre artes plásticas no caderno cultural do maior jornal do estado, trate o leitor com um mínimo de respeito. Ou as pessoas que não sabem quem é Francis Bacon devem assistir ao filme do Batman?

No segundo parágrafo o colunista resume a biografia do autor: Marginal e jogador, Bacon usava lingerie feminina, maquiava-se e retocava o cabelo com graxa de sapato. Anticomunista radical, acordou numa ressaca certo de que os russos haviam invadido Londres. Noutros porres, pintou algumas de suas obras-primas.”

O desenrolar da coluna nada mais traz do que a notícia de que uma das telas de Bacon foi vendida por US$ 86 milhões no mesmo evento em que outra, de Lucien Freud, alcançou a marca de US$ 33,6 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista vivo comprada num leilão, a qual Gaspari descreve com a seguinte frase: “uma mulher gorda e tenebrosa, pintada por seu amigo Lucien Freud (neto do criador da marca)”

No parágrafo seguinte ele analisa comparativamente os dois artistas: “Ele e Bacon têm uma característica comum: atravessaram a metade do século 20 sem se aproximar da arte abstrata. “ Como se não ter sido contaminados pelo abstracionismo fosse um feito, ou uma dádiva. Ou ainda: Como se isso bastasse e fosse base sólida para aproximar ou distanciar definitivamente a obra de dois artistas. Assim poderíamos quiçá, já que estamos tratando da população medíocre que lê os cadernos de cultura, escrever um livro de auto-ajuda: “para entender toda a arte do séc. XX em duas filas: abstratos para a esquerda, realistas para a direita.”

Na coluna, que deve ter sido escrita em São Paulo, não há qualquer menção à exposição de Bacon e Freud (e Moore) que ainda está aberta à visitação no MON, aqui em Curitiba. Falha do editor? Talvez. Falha grave? Talvez não, afinal, só o Jack Nicholson vai ao museu, que fica em Gotham City.

Para finalizar, depois de tantos elogios, o autor deixa a seguinte sugestão: “Quem tiver meia hora de domingo para perder com Bacon e Freud pode visitá-los na internet. Melhor do que perder tempo com mentiras sobre os dossiês do Planalto.” Bom, se essas são as opções que nos restam para o domingo… caros leitores, eu diria que melhor mesmo é assistir ao filme do Batman, aliás: o filme é do Tim Burton.

(Se quiserem apreciar o coringa destruindo o museu de Gotham City, aqui está a cena no youtube):

 

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Comentários:

Em 20/07/2008, Luigi De Franceschi: Desde quando o Caderno G é um bom caderno de critica as artes? Nunca li esse caderno algo interessante criticando cinema, literatura, musica, pintura e teatro. São todos bitolados e dependentes das criticas do estadão, O Globo e a Folha. Nesses jornais, já li muitas críticas coerentes, explosivas e o principal, bem articuladas. Mas mesmo esses jornais estão sujeitos a matérias medíocres. Ai vem a Gazeta e deu um copy - paste” e jogou a matéria lá. Nem críticas eles sabem escolher….

Em 19/05/2008, Mauricio Aguiar: É lamentável a mediocridade daquele que considera-se o maior jornal do estado. Não é a primeira vez em que somos mau-tratados com matérias como essa. Parabéns pela iniciativa, Nicole.

Em 19/05/2008, Luana Navarro: Eu não tinha visto a matéria até então Nicole e fiquei desanimada com o texto do Elio Gaspari, é visível que o cara se baseou somente na internet para produzir o texto e o mais triste é ao invés dele estimular os leitores a sair de casa e irem até o MON ver a exposição o cara me sugere “perder” meia hora do domingo na internet. É esse tipo jornalista que vai escrever um dia sobre nosso trabalho isso me preocupa. A falta de jornalistas especializados na área de cultura afasta cada vez mais o
público dos museus e exposições, até porque este jornalista provavelmente não é um cara que procura ver o que acontece na cidade. Correção: O Élio Gaspari é da agência O Globo, naturalmente o erro é do editor da Gazeta que não leu o texto do cara, porque ele poderia aproximar o conteúdo do leitor daqui citando a exposição do MON. enfim…

Em 28/05/08, Deborah Bruel: Pois é Nicole, há tempos que não temos uma crítica inteligente e especializada na mídia impressa, e quando aparece algo ou é uma mera descrição da exposição ou esse desastre como o Élio Gaspari, com um texto ruim, preconceituoso e medíocre. Eu sinto muita falta de textos consistentes e que repeitem o leitor, parabéns pela iniciativa.

Em 07/08/08, Mariana: furada do editor. elio gaspari não se intitula crítico de arte. é
comentarista político. sua coluna não deveria estar estampada no caderno G e, sim, no caderno de política. por isso ele solta o (infeliz) petardo: “Quem tiver meia hora de domingo para perder com Bacon e Freud pode visitá-los na internet. Melhor do que perder tempo com mentiras sobre os dossiês do Planalto”. e a coluna dele segue falando de corrupção, Bush e privatização. caso nada incomum (no gazeton) de pessoa errada no lugar inapropriado.

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