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007 - Galerias de arte subterrâneas

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foto:fernando franciosi

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foto:fernando franciosi

Artistas e coletivos de arte realizam intervenções urbanas temporárias em seis terminais de ônibus em Curitiba - Publicado em 01/06/2008 | Annalice Del Vecchio

Quando não está de bicicleta, o artista paranaense Goto utiliza o transporte coletivo para se locomover. De tanto pular de um ônibus a outro nos terminais da cidade, acabou identificando, em seis deles, uma peculiaridade que viria bem a calhar com o tipo de pesquisa artística que vem realizando: a existência de galerias subterrâneas para pedestres que interligam as canaletas. “Achava aqueles espaços bacanas, um pouco largados por causa do grande fluxo de pessoas, mas limpos, organizados, diferente do que se vê em outras cidades”, diz.

O artista, que já exercita há alguns anos intervenções urbanas em Curitiba, descobriu nessas galerias o lugar ideal para proporcionar experiências artísticas inesperadas a um público variado e abrangente. “Não é um circuito instituído. O movimento de ir ao museu, à galeria de arte é diferente, pois a pessoas sabem que o que está lá é nomeado como ‘arte’”, diz.

Intitulado Galerias Subterrâneas, o projeto é uma das quatro propostas da Região Sul (entre 36 no Brasil) selecionadas para receber financiamento de produção pelo edital Conexão Artes Visuais, promovido pelo Ministério da Cultura (MinC), Fundação Nacional de Arte (Funarte) e Petrobras. Mas, para interferir no dia-a-dia movimentado dos terminais, “espaços que articulam toda a dinâmica urbana de Curitiba”, diz Goto, foi preciso, logicamente, obter o apoio da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) e da Urbanização de Curitiba (URBS).

Goto convidou artistas e coletivos de artistas com uma trajetória associada à arte no espaço público para criar trabalhos inéditos ou adaptar os que já tinham às especificidades dos terminais e do fluxo humano. Entre os convidados, estão Rubens Mano (SP), Alexandre Vogler (RJ), Marssares (RJ), Lourival Cuquinha (PE). Os coletivos de artistas são Bijari (SP), InterluxArteLivre (PR) e e/ou (assim mesmo, com letras minúsculas) (PR) – deste último participa Goto, juntamente com Claudia Washington e Lúcio de Araújo (leia quadro).

Desde 9 de maio, quem passa pelos corredores subterrâneos dos terminais Pinheirinho, Hauer, Campo Comprido, Campina do Siqueira e Cabral, não consegue ficar indiferente às propostas, que trazem à tona inúmeras questões como participação, identidade, mídia e publicidade no espaço urbano, espaço expositivo, paisagem sonora, público e privado, a cidade como inspiração e suporte para a experimentação da arte.

Isso sem contar o que é levantado pelo próprio público. O trabalho do coletivo e/ou Descartógrafos (terminal Pinheirinho), formado por dois mapas de Curitiba, sofre intervenções dos passantes que são, em muitos casos, verdadeiras críticas à realidade social.

Em um deles, inicialmente uma tela em branco, denominado “Mapa Subjetivo de Caminhos para Casa” ou “Mapa do Arruamento do Sujeito”, a pessoa inclui o seu trajeto do terminal para casa, dando-lhe um título. Surgiram nomes como “Caminho Caótico” ou “De Volta para Onde a Vida Me Leva”.

No outro mapa, mais detalhado, as pessoas fazem marcações e comentários sobre lugares que conhecem, que gostam ou não, que existem ou não. Alguns indignam-se porque não acham seu bairro no mapa – frases como “A Vila Tripa não está aqui” e “Nem o Curvão” estão foram deixadas pelos passantes como contribuição à obra.

Interpretações possíveis do nosso mundo
Galerias Subterrâneas é um projeto de intervenção urbana que está ocupando as passarelas de seis terminais
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Cabral - Interlux - As imagens de pessoas de todos os tipos em cartazes colados nas paredes se confundem de maneira muito interessante com as pessoas de verdade que circulam, apressadas pelo lugar.
Cabral - Interlux - As imagens de pessoas de todos os tipos em cartazes colados nas paredes se confundem de maneira muito interessante com as pessoas de verdade que circulam, apressadas pelo lugar.
Curitiba tem grupos importantes e interessantes que gostam de usar a cidade como suporte para suas criações, escapando das limitações de espaços fechados e ajudando a valorizar o espaço público, sem deixar de lado a crítica bem humorada e o intento de provocar reflexões acerca do como nos relacionamos com nosso tempo. O coletivo Interlux é um desses grupos. Cleverson Salvaro também é nome forte deste circuito e eles são dois dos participantes de Galerias Subterrâneas, projeto coordenado pelo paranaense Goto, e um dos quatro selecionados da Região Sul pelo edital Conexão Artes Visuais, do Ministério da Cultura, Funarte e Petrobras. A proposta mudou o ritmo das seis passarelas subterrâneas dos terminais de ônibus, que ganharam traços diferentes e mais colorido, deixando mais alegre, também, o dia de seus transeuntes.
A reportagem do Espaço 2 convidou Goto para fazer, na manhã de segunda-feira, um passeio pelo terminais para observar o comportamento das pessoas e ver se as obras sobreviveram à ãnsia individualista das pessoas e permaneceram em seus lugares. Partindo da idéia de repensar a ocupação do espaço público, levando arte para fora das galerias e para perto de pessoas cujo cotidiano não propicia o contato cotidiano consciente com as artes contemporâneas, os artistas foram à luta. Além da questão arquitetônica das galerias, diz Goto, “ tem o grande fluxo de pessoas de todo o tipo, em dois sentidos e o tempo todo, em um espaço do qual se tem uma noção mercadológica”. Assim, o camelô que ocupa o lugar pra vender seus produtos, nem sempre aceita bem que um artista chegue ali e divida com ele o espaço, que é público. “Passa pelo hábito. Temos a tendência de pensar no espaço público apenas como de consumo, não nos apercebemos que pode ser criativo também; que pode nos ajudar a encontrar outras interpretações do mundo também”, considera Goto.

O convite para artistas de outros lugares tem o intuito de inverter um pouco aquele pensamento de que é preciso ir para Rio-São Paulo para existir artisticamente. “Assim, nos colocamos como anfitriões e eles experimentam nossa realidade geográfica urbana”, pondera. De início ele comentou: que algumas obras tiveram de ser reinstaladas. “Vamos ver se ainda estão lá” . No período em que a reportagem esteve nos terminais, o maior interesse veio dos jovens. Vários citaram, espontaneamente, trabalhos instalados nos outros ambientes.

Goto conta que uma senhora desenhou 65 bolinhas no que chamou de “pequena área”, que representam as 65 casas de uma ocupação. As intervenções não páram por aí. Foi desenhado um terreno baldio, onde se realizam encontros sob luz de fogueira; campinhos de futebol e áreas verdes que “deveriam” existir. E não faltam “pichações” políticas como “FURTS – assassinato a R$1,90”.

“As pessoas mais simples são as mais participativas. Ficam conversando, chegam a descer do ônibus para matar a curiosidade. Elas querem se colocar no mapa, mostrar seu espaço, seja real ou desejado. É uma cartografia humana, e não-oficial”, diz Goto.

Nos demais terminais, com galerias bem menores do que a do Pinheirinho, cheia de transeuntes, lojas e lanchonetes, o público reage às intervenções das mais diversas formas. Goto faz questão de diferenciar o projeto de outros já ocorridos na cidade como, por exemplo, a Cow Parade. “Essas são iniciativas que não partem da cidade, já vêm prontas. Para dialogar com o nosso tempo, o artista precisa ouvir a especificidade do espaço, conhecer suas características humanas para, então, fazer a proposta.”

Antes de viajar de ônibus pela cidade, confira outras intervenções, além da realizada pelo coletivo e/ou, que estão sendo ou já foram feitas nos terminais da cidade

Cabral

O coletivo de arte InterluxArteLivre, de Curitiba, exibe Ocupação. As pessoas são fotografadas na pose que desejarem e suas imagens são transpostas para um adesivo, quase em tamanho real, que é colado sobre a parede, formando uma multidão do rostos.

Campina do Siqueira

O artista Marssares, de Niterói, captou sons do terminal e os relocou nas galeria, com o apoio de quatro caixas de som. E o projeto Re-Paisar.

Campo Comprido

O paulista Rubens Mano pendurou três lousas com giz e apagador, lado a lado, no trabalho Marco. “As pessoas sentem-se convidadas a escrever e desenhar o que quiserem.”

Capão Raso

O carioca Alexandre Vogler é o dono do trabalho Anamorfose: Base para Unhas Fracas, uma imagem adesivada no teto da galeria que retrata mãos pintadas com esmalte vermelho tapando o que parece ser uma genitália. O teor sexual parece ter incomodado: a imagem foi roubado duas vezes – e, por isso, não está mais em exibição.

Hauer

Em Natureza Urbana, o coletivo Bijari desenhou em linóleo um outdoor transformado em árvore. A obra também aparece em um outdoor real, em frente à Fundação Cultural de Curitiba.

O trabalho Orelha Pública, do pernambucano Lourival Cuquinha, deveria ser apresentado no terminal Pinheirinho, mas, diante de restrições da lei, ganha abrigo no Solar do Barão com apoio da Brasil Telecom. O projeto prevê que o público faça ligações de um orelhão sem tarifação. Em troca, sua conversa será ouvida por todos ao redor.

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