Na verdade foram mais, eu já tinha visto outros, e gosto dos filmes do Wong Kar-Wai, onde a narrativa não me dá novos heróis e a história é esse colchão que se forma entre o fato e quem ele acometeu. Mas é diferente. Pra quem gosta de fotografia, Wong Kar-Wai é denso e viscoso como um orgasmo… múltiplo - chega a doer: assisto com moderação. Para ver melhor, desligo o som e olho os planos começando pelas bordas, um de cada vez. Eles me consomem e me atropelam e eu nunca disse que era outra coisa senão fraca.
Mas esses dois filmes: The Skywalk is Gone (Taiwan, 2002), de Tsai Ming-liang e Café Lumiére (Japão/Taiwan, 2003), de Hou Hsiao-hsien, são leves como uma brisa. Neles os planos se empilham na nossa memória como as imagens de um dia, numa passagem indeterminada de tempo onde quase nada acontece. A primeira imagem em Café Lumiére é a de uma janela, pela qual passa uma moça de saia florida pra lá e pra cá falando ao telefone. Há uma fina cortina branca com listras. É de manhã, faz um pouco de calor, mas tem vento. O filme poderia ser contado só assim. Poderia mesmo terminar aqui, bastaria. Mas há outras imagens que me fazem atravessar a tela seguir essa mulher, como Sophie Calle seguiu seu homem em Veneza. Então eu entro numa dimensão que nem sequer me é dada a ver, sigo para o fora de campo, atrás dessa sobra do que me escapa. Crio o drama nas bordas da tela, me ocupo do invisível. Vivo em suspensão essa vida meio lenta, o meu ritmo e a minha respiração agora são os dela. As coisas não tem peso. Resigno-me à minha dimensão, de ser ínfima, de ser um pedaço que caminha ao lado de algo muito maior, mas que não existe sem mim, ou sem ela. Não existe o completo, há apenas o precário, o volúvel. Os personagens são os seres do mundo. O conflito está diluído entre todos. Não há um compromisso com o futuro, nem débito com o passado. O presente se dilata, entregue a sua própria duração.

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