Entre o mercado e a arte
Especialistas, professores e profissionais da área discutem o ofício de dar cara e funcionalidade a tudo, de utensílios domésticos a aviões a jato
Fonte: Caderno G da Gazeta do Povo
Publicado em 14/06/2008 | Marcio Renato dos Santos
Olhe ao seu redor. Repare, por exemplo, na geladeira, na lâmpada, no computador, na caneta, no celular, no fogão da cozinha e até mesmo nesta página da Gazeta do Povo. Há design em tudo isso. E em praticamente todos os produtos elaborados para o consumo em massa. O Dicionário Aurélio define design como “concepção de um projeto ou modelo; planejamento. O produto desse planejamento”. Mas há muitas outras possibilidades de defini-lo e entendê-lo. O Caderno G Idéias consultou especialistas, de profissionais da área a professores, e essa discussão ganha corpo nesta edição.
O professor de Design da Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) Antônio Fontoura defende a tese de que o design deve contemplar três funções: a prática, a estética e a simbólica. “Tome como exemplo uma cadeira. Ela deve viabilizar que a pessoa se sente, ter beleza e ainda precisa representar algo”, explica. Mas Fontoura salienta que nem sempre um produto apresenta os três itens, às vezes pendendo para a praticidade. Em outros casos, prioriza a estética ou até mesmo a simbologia. “E, por falar em simbologia, se faz necessária uma observação: é possível contar a história de uma época pelo design de um produto”, afirma Fontoura – e essa afirmação é endossada por outros especialistas.
/ Marco: A escola alemã Bauhaus funcionou de 1919 a 1933, e treinou artistas para atuar junto à indústria Ampliar imagem
/ Grife: o designer francês Philippe Starck inventou peças primorosas, como o espremedor de frutas que, ele reconheceu, não funciona bem Ampliar imagem
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Marco: A escola alemã Bauhaus funcionou de 1919 a 1933, e treinou artistas para atuar junto à indústria
Grife: o designer francês Philippe Starck inventou peças primorosas, como o espremedor de frutas que, ele reconheceu, não funciona bem
O coordenador do curso de Design – Projeto Visual da Universidade Positivo, Renato Bertão, não apenas enfatiza que os produtos contam a história do tempo em que foram concebidos como revela que na instituição de ensino superior curitibana os alunos do curso de Design realizam o que ele chama de “arqueologia” de objetos. “Estimulamos os estudantes a fazer a decupagem, por exemplo, de um rádio antigo. É preciso olhar o rádio, observar que materiais e tecnologias foram usadas e, assim, identificar em que período aquele objeto foi construído”, diz Bertão, que ainda completa: “Design é história”.
Os especialistas consultados pela Gazeta do Povo são unânimes ao afirmar que o entendimento do que é, ou pode ser, o design passa pela definição estabelecida pela International Council of Societies of Industrial Desgin (ICSID) – a mais importante entidade de design do mundo. A ICSID garante que design é “uma atividade criativa cuja finalidade é estabelecer as qualidades multifacetadas de objetos, processos, serviços e seus sistemas, compreendendo todo seu ciclo de vida. Portanto, design é o fator central da humanização inovadora de tecnologias e o fator crucial para o intercâmbio econômico e cultural”.
O designer Naotake Fukushima, também professor de Design da UFPR, acrescenta que – a partir do conceito da ICSID – o design, além de abranger as funções prática, estética e simbólica, precisa nortear-se pela sustentabilidade. “Hoje, os materiais usados nos produtos devem ser ecologicamente corretos”, defende Fukushima.
Desatar nós
Mas há quem mude o rumo da discussão, deixando para planos secundários definições e teorizações. Freddy Van Camp, designer e professor da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), do Rio de Janeiro (a primeira escola de design da América Latina, criada na década de 1960), aponta para uma questão desconcertante. “O design é um dos elementos essenciais da nossa economia. É o único elemento a agregar valor aos produtos manufaturados”, analisa. Van Camp observa que, por exemplo, os aparelhos de tevê, em tese, são todos iguais. “É o design que fará toda a diferença, no que diz respeito ao preço e à sobrevivência da empresa produtora”, enfatiza.
O designer e professor da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e UniBrasil Joaquin Fernandez Presas – a exemplo de Van Camp – também milita em prol do design como um desatador de nós para o cliente. “Há o design autoral, tudo bem. Mas, para mim, e para muita gente, fazer design é resolver problemas, é atender o que o cliente precisa, dentro das limitações, mas é isso: superar um obstáculo real”, opina. O professor da Universidade Positivo e da UNIFAE Marcelo Catto Gallina é outro especialista a raciocinar nessa mesma direção. “O designer é contratado para resolver problemas. O design também deve buscar a melhoria da qualidade de vida, por exemplo, no desenvolvimento de móveis para ambientes de trabalho”, comenta Gallina.
Arte!?
E há, ainda, vozes a engrossar a idéia de que o design, obrigatoriamente, tem de flertar com a arte. O designer e professor da PUCPR e da UNIFAE Ericson Straub costuma se valer da definição de Stephen Bayley: “O design dá um caráter poético ao pragmatismo”. Afinal, completa Straub, “o design tem um propósito, tem de resolver algo. E, se resolver com beleza, poeticamente, melhor ainda”. Ele, como todos os especialistas entrevistados, sabe que discutir e pensar o design é algo que tende ao infinito. E, a exemplo do que dizem os demais designers e professores, Straub percebe que o design autoral perde cada vez mais terreno para o “design anônimo”, desenvolvido por empresas como a Electrolux.