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Aproveitando o ensejo da Magnum…

 

Aproveitando o ensejo da Exposição “Magnum 60 anos” que está em Curitiba, inicio um novo bate papo: De que fotografias você mais lembra? Quais fotógrafos foram os seus ícones? Quais são os seus clichês? Começo por aqui:

Nicole Lima, em 22/06/2008:

A Magnum não foi minha primeira mãe, nem musa na fotografia. Se eu fosse apontar um culpado, seria o meu avô, que morreu e me deixou com uma câmera velha que eu não entendia como funcionava. Se eu tivesse que escolher um pai ele se chamaria dada, acho que porque estudei fotografia em laboratório e não em livros, fazendo fotogramas e montagens para tentar aproveitar os negativos ruins e sub-expostos que eu mesma revelava. Pensei hoje que o laboratório da escola ficava numa espécie de mezanino, no mesmo atelier pequenininho onde eu estudava desenho e pintura, pensava que surrealismo era uma luva de borracha vermelha ao lado de uma estátua e impressionismo era amarelo. Pensei também que deve ser por isso essa minha mania de querer que o paralelo junte tudo. Eu nunca aprendi as coisas separadas.

Para mim Magnum veio com Milla, depois de Anuschka (ela me mostrou Platão). Eu quase perdi meus ídolos com João, quando ele me perguntou quem era meu fotógrafo favorito e eu disse Cartier-Bresson. Ele riu, eu clichê. As minhas referências mudaram, cresceram, enfim, mas hoje vejo que continuo gostando mesmo é do Cartier-Bresson. Não pelo momento decisivo (como se as coisas não se decidissem sem nós existirmos, como se fosse possível um dia alinhar a mente e o coração), nem pela garrafa de leite, pelo sorriso do menino ou pela conversa com o gato, mas por ele ter me ensinado - nessa espera de quelque chose que se passe lá - a olhar.

Bresson não me fala de passado, como Capa, nem de pessoas, como Chim. Ele não me conta nenhuma historia. Mas ao mesmo tempo é como se suas imagens fossem esse presente num presente eterno, onde o tempo é sempre o mesmo, a chuva não para de cair, o beijo não termina, a estrada é uma reta infinita e as bicicletas andam em círculos. Ele encheu meu mundo de janelas. E assim, sem mais nem menos, eu dobrei uma esquina e ganhei mil eternidades.

Fui à Paris pra ver a Paris de Cartier-Bresson. Na época (2005), escrevi: “Meu último dia na França começou com uma lasanha que deveria ter sido comida no dia anterior. Hoje, quarta-feira, peguei o trem cedinho de Strasbourg-Paris só pra ver a fundação Henri-Cartier-Bresson, com a qual eu dei com o nariz na porta na segunda-feira passada (porque só eu não sei que os museus não abrem às segundas). Depois de três horas de trem, dois metrôs e um cemitério, carregando 15 kg nas costas, eis que eu me deparo com: a porta. Sim, estava fechado mais uma vez. Estão trocando a exposição, abre amanhã. Eu tentei explicar que amanhã não existe, mas eles não deram muita importância. Chorei quatro quarteirões. E ainda perguntam por que as pessoas saem se jogando embaixo dos trens por aqui.”

Ele era a pessoa que eu pensava em encontrar na rua, junto com Hilda Hilst. Os dois morreram na mesma semana, em 2004. Pensei: “E assim, de repente, o mundo simplesmente ficou pior.” Mas depois me disseram: “a gente morre duas vezes: uma quando morre de fato e a outra quando a última pessoa viva esquece o nosso nome.” Fico feliz assim, sabendo que mesmo com esse pequeno texto presto minha homenagem, hoje eu escrevi Henri Cartier-Bresson em mil lugares e ele morreu um pouco menos.

deixe aqui o seu clichê:

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