Ocupação - nicole lima
Nas semanas que passaram vi pessoas que dançam no palco, na rua, em vitrines. Cartazes, azulejos nas calçadas. (logo subirão até os muros, onde estará?). Porque dizem que o espaço público virou esse espaço de desafetos, onde nada é palpável, onde tudo é tão rápido quanto ontem e corpos se atravessam como se fossemos feitos de ar. Mas será que não é porque a densidade é tamanha que não percebemos onde começamos, onde terminamos? Palavras recorrentes: ocupação, inserção, intervenção, tocar, reverberar. O outro, o outro, o outro. E se reverberar é esse som que a gente emite e volta não o mesmo som. É um som de coisa ferida, transformada ainda que seja a custa de um murro contra a parede seca. Percebo que até este texto está ocupado por vozes de afetos, de coisas que me afetaram profundamente. As linhas se fundem entre um nome e outro e formando veios que atravessam meu corpo em zigzag. Começou com ela, com a primeira vez que ouvi a palavra afeto, dita da boca dela. Ela que procurava esse espaço, do verbo afetar. Aí o espaço sumiu e ela me deixou com o que sobra da gente. Esse cheio, esse vazio. Esse buraco que a gente preenche num sopro. Um ano depois, perguntei para ele o que era amor, num tom de desconfiança: vai dizer que você sabe o que é amor? Ele que não come uvas sem sementes, é só o que eu sei, porque os caroços machucam a boca. Ela que come o pão sem as cascas. Ele que me esmaga e eu peço pra parar, com medo de morrer, mesmo sonhando que não pare nunca. Ele respondeu: amor é quando uma pessoa cava um buraco na outra. Pedi um texto para me explicar, porque aprendi que as coisas que a gente não pede nem sempre são visíveis. Ele me devolveu uma ocupação.
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