Uma semana depois, cinco anos mais tarde (ou seis?): o espaço é um desconhecido de 38 anos. Cá estou, virando a mesma esquina, correndo como uma criança para ver você, que encontro com as mesmas mãos apoiadas na cintura, e é como se, ao invés de cruzar um continente, você tivesse apenas saído do quarto e ido até a sala, cansado de estudar. Aí você me pergunta como vão as coisas, eu digo que ainda não me acostumei com a gaveta dos talheres e que sempre abro a porta da lavanderia para o lado errado.
Tento reorganizar os móveis e objetos em ordem autobiográfica. Penso em high-fidelity. Olho para o meu quarto novo e vejo que coloquei os móveis na mesma exata configuração do quarto velho. Penso no painel do João e nas imagens que explodiram do fundo da memoria para uma parede que só ele via. Penso nas coisas que só eu vejo, como as suas mãos de antes de hoje, os caracóis que você não tem mais no cabelo e a vista da janela que antes estava 5 andares abaixo, 10 anos atrás, 30 metros à direita. Agora tenho mais janelas com vista para o infinito que vão de um japão a outro. Elas não cabem nos meus olhos (penso em Wim Wenders, logo, penso em você), então me volto para o chão para ver melhor, penso em Felipe e procuro um horizonte perdido num paralelepípedo do meio fio. Então sigo olhando as pessoas que andam pelo parque, esperando secretamente vê-las desenhar os mesmos círculos amanhã.

