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Por que fotografar? Qual o lugar da fotografia documental? Que poder transformador carrega uma imagem nos dias de hoje?

(fotografia de Lewis Hine)

Por que fotografar? Qual o lugar da fotografia documental? Que poder transformador carrega uma imagem nos dias de hoje? Quem responde é o fotógrafo Felipe Prando, que semana passada esteve todas as tardes no NEF- núcleo de estudos da fotografia para conversar, o convite era aberto: “quem quiser é só aparecer com idéias e/ou projetos”. Apareci:

Nicole Lima: Quando os primeiros fotógrafos saíram a campo havia um forte desejo de documentar o mundo onde a fotografia tinha esse poder de tornar algo visível para todos. Com o tempo criou-se uma impressão de que “tudo já havia sido fotografado” Qual o sentido hoje de se desenvolver um projeto foto-documental?

Felipe Prando: Quando pensamos que “tudo já foi fotografado” colocamos a questão como se a fotografia estivesse ai para mostrar o que ainda não foi mostrado, uma idéia da fotografia como aparato que propicia a produção de um documento que comprova/testemunha a existência de algo da realidade. De fato a fotografia pode ser usada desta maneira, e muitos ainda a usam desta maneira, mas ela não se reduz a isso. A fotografia documental sempre lidou com esta idéia, mas nunca parou nesta idéia que muitos ainda fazem dela. Gosto de pensar que a fotografia documental está ai para refletir, propor questões, sobre nosso tempo. Não somente para atestar a existência, ou não de algo da nossa realidade, mas principalmente refletir sobre a existência desta realidade.

Então acredito que o sentido de desenvolver um projeto de fotografia documental seja ainda o mesmo: refletir sobre o nosso tempo. A maneira de se fazer isto para aqueles fotógrafos foi levar coisas novas para o debate daquela época, que seguem sendo da nossa época. Eles abriram, propuseram novas questões para serem discutidas. Colocava-se em questão inclusive a possibilidade da fotografia (imagem técnica) ser mímesis da realidade, pois, provavelmente, as primeiras imagens da América e dos americanos, da África/africanos, Ásia/asiáticos não foram propiciadas pela fotografia, nem pelo desenho, mas por relatos realizados por colonizadores que passavam por estes lugares. Poderíamos pensar que imagens construídas pelos primeiros relatos sejam tão fortes no imaginário eurocêntrico quanto às imagens produzidas pela fotografia. Aqueles fotógrafos estavam em busca de questões que diziam respeito ao seu tempo. E uma daquelas questões era justamente a possibilidade de apropriar-se daquelas realidades. E por mais que pudessem buscar responder a suas questões acredito que estavam recriando as questões.

NL: Na exposição da Magnum havia uma imagem do ataque terrorista de 11 de setembro. Na época lembro de ouvir muita gente dizer que aquelas imagens “pareciam um filme”, o que me faz sempre ter a sensação de que a fotografia não chega mais a afetar, que existe uma certa apatia generalizada em relação a essas imagens que se tornaram cotidianas. A fotografia ainda tem algum poder transformador dentro da sociedade?

FP: Imagino que a fotografia até possa ter algum poder transformador, desde que esteja produzindo algum tipo de reflexão sobre o que aborda. Ainda assim nada garante que um trabalho com fotografia possa ser o que transforma algo dentro da sociedade. O que me interessa num trabalho documental, independentemente dele vir ou não a transformar algo, é que ele se preocupar em elaborar questões.

Referências fortes que nos levam a pensar esse suposto poder transformador social da fotografia são trabalhos que se tornaram clássicos como, por exemplo, o de Lewis Hine, e de Jacob Riis. Dois fotógrafos que desenvolveram seus projetos nos Estados Unidos na virada do século XIX para XX. Tanto Jacob Riis com o trabalho “Como vive a outra metade” (1888), quanto Lewis Hine com “Trabalho Infantil” (1908), acabaram por produzir projetos que estavam pensando questões daquele período. Portanto, se estes trabalhos acabaram contribuindo em processos de transformação social, como na proibição do trabalho infantil nos Estados Unidos, foi devido não somente ao uso da fotografia para a produção de um documento de uma realidade social, mas pelas questões levantadas por estes trabalhos fotográficos.

Inegável que o uso da imagem fotográfica foi importante para a elaboração destes discursos. Neste aspecto podemos pensar outras questões que envolviam, e ainda envolvem, a imagem fotográfica, principalmente a analógica, como a idéia de que esta imagem seria uma mímesis da realidade e deste modo um retrato objetivo do referente representado na imagem. A idéia de verdade, construída objetivamente, está presente no debate sobre a fotografia, desde a sua invenção. Neste sentido podemos entender um poder de convencimento da imagem fotográfica através da constatação da existência de um acontecimento, a imagem fotográfica como portadora de uma verdade. Muito desta relação imagem fotográfica e verdade decorre de um referencial positivista (contemporâneo da invenção do processo fotográfico) que estabelecia parâmetros metodológicos para a produção de uma verdade científica. A descrição objetiva dos fatos seria o caminho para a produção de verdade. Acreditava-se, e ainda acredita-se, que a imagem seja esta descrição objetiva dos fatos, todavia se insistirem em pensar que “contra fato não há argumento” não podem se esquecer que a imagem fotográfica não é o fato, mas o argumento (uma representação) sobre este fato.

NL: E a fotografia documental hoje?

A fotografia documental hoje segue tendo seu papel de produzir reflexões sobre a sociedade do nosso tempo. Não basta simplesmente mostrar as coisas do mundo de hoje, tipo “olhem só o que ocorre em tal situação” é necessário pensar sobre essa tal situação e desenvolver isto no trabalho. Encontrar maneiras de pensar sobre esta questão apontada. Há trabalhos documentais que seguem abordando temas já bastante batidos, mas ainda presentes em nossa época que requerem novas abordagens. Um exemplo interessante pode ser um trabalho desenvolvido pelo Antoine D’Ágata sobre prostituição no Camboja. Não é mais aquela coisa de entrar num Bordel e apenas fazer fotografias bonitas, com enquadramento, composição e luz extraordinários. Há uma busca por elementos que possibilitem pensar a prática da prostituição no Camboja: prostituição infantil, turismo sexual, pedofilia. Nesse trabalho ele utiliza ainda a idéia das pranchas fotográficas da fotografia policial do século XIX. Isso mostra que um projeto documental não acaba na produção da imagem, mas que este momento é uma parte do processo. Fazer, ou tirar, fotografias todos sempre fizeram, o que diferencia um projeto documental de um amontoado de imagens bacanas, é a reflexão. Fazer este ou aquele tipo de fotografia (paisagem, retrato, auto-retrato, apropriação, colagem, etc.) não é o que pesa na balança, o que interessa é o que o trabalho está propondo discutir e como.

É importante perceber também que a maneira de pensar a fotografia documental também muda, e não temos que nos prender nas referências históricas. Devemos nos apropriar destas referências, mas não nos tornarmos reféns delas. À medida que tomamos consciência da ficção que é a imagem fotográfica, que ela não é a realidade, nem mesmo é capaz de apropriar-se da realidade nos deparamos com muitos outros caminhos para pensar e desenvolver um trabalho de fotografia documental.

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NL: Que livros de fotografia você indicaria como referência, para quem quiser pesquisar mais sobre o tema?

FP: Segue a minha lista:

 

 

SOBRE AS RUINAS DO MUSEU

FILOSOFIA DA CAIXA PRETA

O FOTOGRAFICO

BERND AND HILLA BECHER

 

O QUARTO ICONOCLASMO

   

Marcos, em 19/08/08: Odeio pseudagem. Odeio pseudos-sei-lá-o-que. Pra que tanta pretensão sobre a fotografia? A imagem serve para registrar e mostrar algo, e, às vezes, provocar uma sensação/emoção. Ponto. Não tem que suscitar discussões, filosofia, ou abordagens semióticas. É simples assim. Não tem nada de “mímeses” ou “retrato objetivo do referente representado”. Chega de pseudagem.

Nicole Lima, em 24/08/08: é esse mostrar algo: mostrar o que? para quem? de que forma? por que uma imagem fotográfica seria menos digna de discussão do que qualquer outra imagem?

Milla Jung, em 25/08/08: Olhe, Marcos, eu também odeio a pseudagem, mas no caso da fotografia (ou de imagem) é muito ingênuo falar de representação, não? É justamente
atravessar sua transparência e ser engolido por seu mecanismo. Afinal estamos no campo de linguagens, onde as coisas não \\”servem\\”, mas são. Já diria Baudrillard, pensar as imagens é só uma reação a que elas nos pensem. O jogo enfim é muito mais complexo do que pura contemplação e desfrute. Claro, há sempre a possibilidade de ficar nessa
camada de alienação, afinal são as escolhas.

 

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