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les jeux sont faits

por nicole lima

Les jeux sont faits, os dados foram lançados. Essa frase é a última de um texto do Ferreira Gullar na Folha Ilustrada de ontem: “Quando digo que a vida não é newtoniana e, sim, quântica, sei que não estou fazendo uma afirmação científica, mas, como poeta que às vezes sou, valho-me de uma metáfora para baratinar a cabecinha do próximo e fazê-lo se dar conta de que, muitas vezes, dois mais dois são cinco.”

Acho engraçado como os textos caem sempre como aquele último pedaço de pizza esquecido na geladeira, bem na hora da fome. Esse ontem me fez pensar muito antes de dormir. Tenho contado com a sabedoria popular na hora de olhar o resultado dos editais de que tenho participado, ainda que quase sempre na categoria “ouvinte”, e ainda acho que a melhor frase é a do Dunga (o técnico, não o anão): “no futebol há sempre dois times em campo: os que ganham e os que justificam” ou ainda a do Nelson Rodrigues: “para um jogador de caráter, uma vaia é um afrodisíaco infalível.”

Ontem mesmo fui olhar no Google e lá estava ele: outro sonoro “não”. Sempre penso que eles deveriam vir acompanhados de algo gentil como “obrigado, volte sempre”, mas não é não, aliás, não é nada: é passar o olho e procurar seu nome várias vezes, pensando que podem ter errado a ordem alfabética, ou que podem ter escrito de trás pra frente, ou em outro idioma, quem sabe? Mas a vida não é lógica, é quântica, né Gullar? O fato é que temos que lidar com isso quase que semanalmente, quando não somos nós, são os amigos, um dia passa, outro não passa, entra no salão de lá e fica de fora no daqui, enfim, você não morre José, você é duro José. E haja Sedex!

Obviamente é sempre mais confortável nos agarrarmos nas desculpas: “a comissão julgadora não teve critério.” Como não teve critério?????????? Mesmo que tenha sido um péssimo critério, certamente houve um. Outra freqüente é: “são sempre os mesmos, eles só lêem os nomes, nem avaliam os projetos” sinceramente, não acredito nisso, posso ser medíocre muito mais vezes do que consigo ser minimamente genial, mas não consigo imaginar que um trabalho forte de verdade vá perder a vez para outro menos interessante. Claro que todo julgamento é subjetivo, que toda subjetividade está presa a certos paradigmas e por aí vamos de mãos dadas, mas tem gente boa e séria julgando esses trabalhos, tem que ter! Afinal, que interesse há justamente na arte para que eles sejam taxados de reacionários? Se existe uma revolução possível ela não está na política, nem na filosofia. É irmão, sobrou pra nós.

Bueno, vou lá chorar na cama que é lugar quente, e viva o bom humor!

Bom dia

Bom dia

Bom dia

(é um mantra, repita quantas vezes for necessário)

Enquanto isso, mais pérolas futebolísticas, afinal futebol também é arte, assim como a culinária e a malandragem:

“A única diferença da Política para o Futebol é que, na Política, por falta de bola, eles se chutam uns aos outros.” Heitor Villa-Lobos

“O difícil, vocês sabem, não é fácil.” Vicente Matheus

“Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado” Neném Prancha

comentários:

Joao Debs, em 17/11/2008: Posso sem algum esforço de simpatia admitir que seus ensaios são suficientemente possiveis, outros não. Mas citar Ferreira Gullar e Dunga decidimente foi pra mim de uma infelicidade dominical. Mas não o culpo em relação ao primeiro, o qual já nutri quanticamente uma admiração. Quanto ao segundo, dúvido da proesa da frase. Mas quanto a você ? Bem, melhor dar um tempo. Isso porque a frase do Nelson Rodrigues o  salvou, ou seja, aqui vai minha vaia: Uuuuuuuuuuuuu!

A míssiva não é pessoal, talvez, um “afrodisíaco” não sei se “infalível”.

Amplexos,

João.

P.S. Ora era, ou orra erra.

Rodrigo Madeira, em 17/11/2008:

algumas outras:

nelson rodrigues: “a pelada mais sórdida tem uma complexidade shakespeareana.”

vicente matheus: “não, o sócrates é invendível, incomprável e imprestável!”

tostão: “é o resultado - sempre - que faz o comentário”

eu: o futebol é tão belo porque pode ser injusto como a vida.

Orlando Tosetto, em 17/11/2008:
Falta humor ao sujeito, claro. Se a vida misturou o Dunga com o futebol, podemos agüentar qualquer coisa. E o Ferreira Gullar, que metido, hein? Citando em francês o que sempre foi bom Latim: alea jacta est.

Terence keller, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

Continuando na política de roubar frases dos outros, eu, desmemoriado, repito a frase de um sujeito que nao lembro o nome, mas o nome nao importa, especialmente se vc for como eu, que esquece nomes… vamos lá:

Na premiação do festival de curtas do Rio, que aconteceu no domingo dia 9/11, um cineasta premiado subiu ao palco e disse algo mais ou menos assim: “eu frequento diversos festivais e em quase todos eles discordo dos filmes premiados, estranhamente hoje estou aqui recebendo o prêmio. Isso me assusta. Então, se você gostou do meu filme, pode me dar os parabéns, mas se gostou que meu filme recebeu o prêmio, parabenize os jurados.”

Daniel Barbosa, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

olá,
minha cara colega, não dá pra ganhar todo dia…
mas o melhor é não poder ganhar sempre!…
eu acho que editais e coisas do gênero são válidos até determinado ponto, que eu ainda não sei qual é! Mas acho que o que está faltando para estes editais  virarem só mais um meio de produzir seja lá o que for, é viver sem eles, os editais.

as instituições são úteis? até que ponto?
expor, ganhar dinheiro pra produzir, viver de buscas no google e não dormir direito até preencher todos os requisitos para ser classificado são alguns meios, mas não os únicos e tão pouco os ultimos!

O negócio é fazer por conta, sem contar com as burrocracias de muitas instituições!!!
bolsa produção, salão paranaense, brde, mecenato e tudo que é coisa do gênero aqui nesta cidade é pra muito estatus - não sei pra quem!-, e pouca reflexão e produção.

Não sou contra estes meios, mas quando quero fazer algo, eu vou lá e faço, pronto! deu-deu, não-deu não-deu!

conheci uns caras lá em SP, que faziam um trabalho super fodão individualmente e coletivamente também, mas que depois que entraram na onda dos editais passaram a só fazer trabalhos para o SESC, a prefeitura y otras cositas mas. Agora continuam os amigos mas mas os trabalhos são sempre com um objetivo artistico, e quando eles dizem artistico, eles não têm medo de falar de grana. de viver de arte ou de princípios e questões éticas.

enfim, um papo meio de boteco, mas, quer fazer, vai lá e faz!

e um grande beijo pra você

Nicole Lima, em 18/11/2008:

oi daniel!
vc sabe que vc tem razao? essa vida atrás dos googles é meio esquisita, ainda mais pra mim, que acredito que pra bom escritor meia página basta.
por outro lado eu tenho aprendido muito com os editais, o legal de escrever projetos é que de alguma forma eles nascem e tomam corpo, aí mesmo quando nao dá em nada, dá em alguma coisa que é justamente o pontapé inicial para eu arregaçar as mangas e colocar a mao na massa.
:)
o texto eu escrevi um pouco por mim, que tive insonia no domingo, outro tanto pelos amigos que ouço reclamar sempre. mas tb porque gosto de colocar as conversas de boteco na mesa, me sinto melhor sendo humana quando estou dividindo minhas humanices com outros.

Paulo Koehler, em 19/11/2008:
No mesmo clima dos “excluídos” do reconhecimento social ao que fazemos, envio este “versinho” do João Cabral de Mello:

” Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e o não fazer
mais vale o inútil do fazer…”

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