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o cubo negro

Fui a São Paulo ver a bienal. Várias pessoas foram. Não gostei do que vi, como quase ninguém gostou. Antes me perguntava por que o silêncio após uma bienal que prometia revolucionar a história e os valores da arte contemporânea no Brasil. Aquela que traria a discussão, o transeunte, o vazio, o Niemeyer. Quase saí gritando: Cadê a revolução? Pois é, ao invés do brado retumbante, parece que continuamos a viver de paz no futuro e glória no passado.

Mas o que você viu? Perguntam. Quase nada, não por falta de bons trabalhos, é fato - havia muitos excelentes, até. Mas pela indisposição e mal estar de estar transitando pela superfície de obras que levaria dias senão anos para acessar, arte com bula de letrinhas miúdas. Era nítido que nada ali viria ao meu encontro, tudo estava tão disponível quanto sempre esteve: nas estantes das bibliotecas ou nos túmulos dos mortos. Ivo Mesquita me jogou no cubo negro. Entre pela larga porta, saia pelo buraco de uma agulha, se a encontrar. Aridez, hermetismo, preto, branco. Foi o que eu vi: a bienal dos tapumes, dos fones de ouvido e dos banquinhos de madeirite, que pareciam dizer em coro: cuidado, não se aproxime - obra de arte. Obedeci. Se isso é bom ou mal, aí vai do seu julgamento, caro leitor. Do meu, para isso não gasto mais um vintém. Sigo inalterada, apenas com alguns trocados a menos no bolso que gastei com um sanduíche de queijo e um suco no parque.

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