A Curitiba que emerge

Às vesperas de mais um aniversário, a capital paranaense vive uma efervescência cultural como há tempos não se via por aqui.

Se é verdade que a cultura reflete o momento de uma sociedade, então esqueça todos os clichês sobre Curitiba. A cidade isolada de outros tempos se abriu, cresceu e agora vê nascer os frutos de uma nova mentalidade, baseada na colaboração, na diversidade e num certo senso de empreendedorismo.

Encontro entre gerações é marca da produção cultural na cidade. Na foto, Leprevost (á dir.) contracena com Luthero

O conceito do “faça você mesmo” nunca fez tanto sentido por aqui. E o que era provinciano ganha ares cosmopolitas. Há de tudo um pouco na Curitiba dos anos 2000, e para todos os gostos. De restaurantes exóticos a festas góticas. De grupos de maracatu a exposições internacionais. Não existe um hobby ou tribo que não tenha adeptos – e um circuito próprio – nestas bandas.

Hoje, é possível sair de casa para se divertir, aprender, comer bem e apreciar arte de domingo a domingo. Já parou para pensar na quantidade de bares, restaurantes, teatros, cursos, cinemas, galerias e espaços culturais que abriram nos últimos dez anos? É claro que tudo no Brasil se desenvolveu muito com o aquecimento da economia. Mas um ambiente fértil como este só se constrói com cabeças abertas e espíritos livres.

Daí a importância da nova geração que desponta no cenário. Gente que cresceu vendo os mais velhos chorarem suas pitangas eternamente nas mesas de bar e simplesmente não quis aquilo para si. “Adultos jovens”, que trocaram o discurso da falta de incentivo pela atitude de juntar os amigos e fazer acontecer.

Nesse sentido, o conceito de núcleo de produção é crucial para a compreensão do processo. O sistema, no entanto, não tem nada de complexo ou inovador. Tampouco surgiu em Curitiba. Sempre existiu e explodiu com o advento da internet, essa genial ferramenta agregadora de informações, e principalmente, pessoas.

Para tirar um projeto do papel, basta montar uma espécie de equipe multidisciplinar e colocar o bloco na rua. Cada um faz o que sabe (escreve, fotografa, discoteca, produz, divulga, negocia, administra, etc.) e se ajuda mutuamente. O dono da bola hoje pode virar o colaborador de amanhã. E, aos poucos, o grupo vai criando um currículo e uma identidade. Quando alguém “estoura”, todo mundo sobe junto.

Ídolos locais

Mas, por favor, não confunda os núcleos (ou coletivos, como também são chamados) com panelinhas. Porque uma das características mais fortes deste novo momento é o estabelecimento de parcerias. Ao enxergar o outro como parceiro, e não como concorrente, fica muito mais fácil atingir objetivos.

Um bom exemplo dessa tendência é a cena local do humor. Logo que as noites de comédia se popularizaram, os produtores perceberam que havia mercado para todos – e, ao invés de rivalizar, buscaram o diálogo. Hoje, os comediantes participam dos shows uns dos outros e chegam a dividir os custos de trazer artistas de fora para a cidade.

Fortalecido, o circuito conseguiu fabricar seus próprios ídolos entre a classe média. Algo impensável num lugar onde até pouco tempo imperava a lógica distorcida do “santo de casa”. Para fazer milagre por aqui, era preciso se destacar primeiro em outras praças. Felizmente, isso está mudando.

Que o digam as duplas do movimento conhecido como sertanejo universitário. Este, sim, um verdadeiro fenômeno local de público, que deveria merecer um pouco mais de atenção da “inteligência” curitibana. Tratados como celebridades, os astros emergentes do gênero fazem sucesso da periferia aos bairros nobres, ancorados num eficiente esquema que envolve promotores, rádios e casas noturnas.

Com uma audiência cativa em Curitiba, sobra tranquilidade para ir mais longe. Não à toa, muitos desses cantores – e também humoristas, cineastas, atores, bandas de rock – começam a aparecer para todo o Brasil e, em alguns casos, no exterior. E não foi preciso aparecer um messias para guiar o rebanho, como muitos sempre acreditaram. Se hoje há uma efervescência cultural, ela surgiu espontaneamente.

Mas não se trata de ufanismo. Até porque muitos entraves permanecem: centralização, radicalismo, preconceito e, sobretudo, gente que insiste em reclamar da vida por aí. Seja como for, nunca foi tão empolgante morar nesta cidade. E quer saber o melhor de tudo? Ainda há muito o que se fazer.

Omar Godoy
Equipe da Folha