Abertura Exposição Hidrofilia – Fabrizio Andriani

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Hidrofilia

Sempre fui fascinado por tecnologias de cores. Lançando mão de novas tecnologias, a indústria química vem inovando ao oferecer materiais e tonalidades diferentes das tintas e dos espectros “tradicionais”. Nos últimos três anos investi na experimentação de matizes contemporâneos explorando as novas cores metálicas, fluorescentes e fosforescentes existentes em tinta acrílica. Neste processo, foi fundamental a pesquisa de uma nova linguagem formal e, consequentemente, o desenvolvimento de um estilo pictórico próprio que permitisse um casamento entre a forma e o impacto das novas cores. Assim, minha arte vem evoluindo em diálogo constante com as linguagens contemporâneas, apropriando-se de traços, recortes e personagens que marcam visualmente a paisagem urbana, como a estética das histórias em quadrinhos, dos vídeo-games e dos novos desenhos animados.

Nas décadas de 70 e 80, as canetas hidrocor eram usadas para finalizar objetos gráficos, uma ação que chamamos de renderizar, sobretudo no desenho industrial ou no design, mais especificamente na indústria automobilística. Nas artes visuais, o estilo “canetinha hidrocor” estava presente na produção inspirada em HQ’s, marcada pelo uso de cores puras e chapadas evidenciadas pelo contorno preto.

Como professor no ensino fundamental, acabei me reaproximando dessas conhecidas “canetinhas”, utilizando-as, porém, de maneira diferente. Tudo começou com uma brincadeira com os alunos, um presente que eu costumo oferecer-lhes ao final das aulas de arte. Um desenho todo feito em canetinha em papel sulfite, à mão livre, sem rascunho a lápis. Após diversas “brincadeiras” como essa, pude observar variações e repetições, incorporando aos poucos uma nova técnica de traço, preenchimento e camadas de cores. Simultaneamente a isso, passei a desenvolver um novo estilo de desenho, um aprimoramento do traço de improviso, livre na forma, mas que se adequasse à recepção de cores fortes e de um contorno marcante.

Num primeiro momento, percebi que a sobreposição de cores diferentes resultava em tonalidades imprevisíveis e inusitadas. Em seguida, era surpreendente a reação química entre as canetas de marcas diferentes. Por fim, a constatação de que a superfície também interferia no resultado final.

Resolvi encarar essa brincadeira como um novo caminho de trabalho, buscando constância e volume de produção, com a finalidade de levar a cabo uma pesquisa que envolvesse técnica, linguagem e estilo.

A técnica
De início, passei a empregar as canetas hidrocor misturando-as: várias marcas diferentes, cada uma com suas características, cada uma com sua tonalidade, algumas gastas, outras sujas, marca-textos, canetas permanentes, pantones, escolares, profissionais, cada uma com sua química e com seu processo de fabricação industrial, de origens diferentes: nacionais, japonesas, inglesas, americanas, italianas, etc. Do papel sulfite passei ao papel couchet, o que me permitiu a experimentação de novas possibilidades de absorção, aderência e um brilho particular. Além disso, a ampla utilização do papel couchet na impressão de cartazes e divulgação em geral aliada ao fato de eu poder trabalhar o verso desse material gráfico favorece a reutilização de material reciclável, diminuindo o custo da obra e o volume do lixo circulante.

A linguagem
A temática é coerente à origem desse novo estilo, surgido das brincadeiras em sala de aula. Personagens fictícios oriundos do mundo dos quadrinhos, desenhos animados, vídeos-game e RPG, traços e formas característicos da estética contemporânea. Para contê-los, o formato das obras também evoluiu. Muitos trabalhos cobrem totalmente as superfícies A4 e A3, mas em alguns momentos procurei mostrar que as canetas hidrocor podem superar as medidas convencionais das gráficas e alcançar dimensões de telas grandes – grandes o bastante para compor uma exposição. A insistência no uso das canetas provou que elas podem “sofrer” para cobrir grandes superfícies e chegar ao fim, mas, enquanto vão gastando e perdendo a intensidade da pigmentação original, vão apresentando novas nuances, às vezes mais interessantes do que quando novas. Além disso, o processo nas superfícies maiores possibilitou maior visibilidade da reação e colaboração entre as cores e químicas, permitindo também o uso do álcool para o preenchimento de toda a superfície, o que resultou ainda numa melhor diluição e texturização.

Posso dizer que o resultado desta mistura de “canetinhas” é uma pintura contemporânea, muito próxima da realidade dos programas de computação gráfica, mas com a alegria da manualidade e da diversão.

Fabrizio Andriani
Artista Hidrográfico.