MAC – 248 obras restauradas

MAC 248 OBRAS RESTAURADAS

Mesa redonda: MAC – 248 obras restauradas
Local: Sala Theodoro De Bona – MAC/PR Rua Emiliano Perneta, 29, Curitiba
Data: 18 de junho às 18:00h

Com curadoria da Professora Rosemeire Odahara Graça, a exposição apresenta obras do acervo com suporte em papel, restauradas através de projeto viabilizado pela Lei Rouanet, tendo como patrocinadora a empresa Abengoa Concessões Holding S.A./ATE. A execução do trabalho ficou a cargo das conservadoras e restauradoras Jozele Penteado e Vivian Letícia Busnardo Marques, do Laboratório do Papel Ltda., Curitiba.

O acervo, as intervenções e a mostra
Rosemeire Odahara Graça

O acervo do Museu de Arte Contemporânea (MAC) é um dos mais importantes do Paraná. Composto por aproximadamente 1500 trabalhos de artistas de diferentes procedências, ele é o que melhor representa a história das artes visuais deste estado no século XX.

Tendo sido o MAC durante muitos anos a instituição promotora e sede de alguns dos mais significativos eventos artísticos de vanguarda no Paraná, é natural que seu acervo contenha obras de importância histórica e de qualidade, criadas por artistas nacionais e internacionais. Adquiridos por meio de premiações ou doações, esses trabalhos registram a respeitabilidade que esta instituição possui além das divisas deste estado pelo profissionalismo com que trata as artes visuais e seus produtores.

Dentro do acervo do MAC o núcleo de obras que tem como suporte o papel é um dos que possui maior valor artístico. Fruto da importância que Curitiba adquiriu nas décadas de 70 e 80 como um centro de produção e discussão de diferentes técnicas de gravura, e o MAC como promotor do Salão Paranaense e da Mostra do Desenho Brasileiro, o grupo de obras em papel além de numeroso é um dos mais valiosos na representação de qualidade e diversidade das artes visuais produzidas no século XX sobre este suporte no sul do Brasil.

Tendo em consideração a importância e fragilidade deste núcleo de trabalhos o Laboratório do Papel (empresa especializada em conservação e restauro de obras e documentos que têm o papel como suporte), com o patrocínio ofertado pela Abengoa Brasil por intermédio da Lei Rouanet, tomou para si a responsabilidade de retribuir a comunidade do local onde atua ofertando ao MAC um projeto de conservação e restauro de algumas das mais significativas obras em suporte papel de seu acervo.

Dentro do plano de ação traçado em conjunto por essas três instituições foram higienizadas, restauradas e acondicionadas de modo mais apropriado, 248 obras. O trabalho realizado entre 2008 e 2009 deu nova vida a trabalhos realizados com diferentes técnicas e materiais, que mantém em comum, além do suporte, a linguagem do desenho.

O trabalho privilegiou obras de significativo valor histórico e artístico e que se encontrava em situação de risco, trazendo novamente à vida as imagens concebidas pelos artistas, evitando, portanto, que estas se deteriorassem ou continuassem a ofertar risco às demais.

O lote de obras restaurado é composto por trabalhos que datam desde 1910 até 1990, sendo que a maioria delas, entretanto, data da década de 60. Algumas das obras que foram trabalhadas, como outras tantas constantes do acervo do MAC, encontram-se sem data e um estudo mais detalhado das mesmas em relação à biografia de seus autores ainda precisa ser desenvolvido para que datações aproximadas destas sejam produzidas.

Grande parte das obras trabalhadas tornou-se parte do acervo do MAC como resultado de prêmio-aquisição concedidos pelo Governo do Estado do Paraná em diferentes edições do Salão Paranaense e da Mostra do Desenho Brasileiro. Outros trabalhos passaram a integrar esse acervo graças à doação dos mesmos por seus autores, familiares ou colecionadores.

Neste grupo de obras a maioria dos autores desenvolveu suas carreiras artísticas em São Paulo. Apesar disso, o Paraná encontra-se bem representado (inclusive com obras de alguns dos mais importantes artistas locais), assim como se observam trabalhos de artistas de diferentes localidades das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do país, e um interessante trabalho da Alemanha.

A exposição agora apresentada no prédio histórico do MAC traz ao conhecimento público uma parcela significativa das obras que passaram por uma intervenção física e/ou química das profissionais do Laboratório do Papel. Visando a ser essa uma mostra de fácil compreensão e interesse para uma variedade de público as obras que a compõem foram escolhidas principalmente por demonstrarem claramente as intervenções técnicas pelas quais passaram, e por serem significativas tanto em valores artísticos quanto históricos.

Como se irá perceber, algumas salas contêm uma reprodução fotográfica de um dos trabalhos antes de passar pelas ações técnicas das restauradoras junto ao original deste após a intervenção. Uma seqüência cronológica das obras e artistas foi estabelecida na maior parte da mostra para que se tornasse mais perceptível a amplitude histórica do núcleo de trabalhos considerados.

Algumas das obras e suas histórias

Integram a mostra trabalhos restaurados de Käthe Schmidt Kollwitz (1867-1945), Zaco Paraná (1884-1961), Guido Viaro (1897-1971), Lívio Abramo (1903-1992), Clóvis Graciano (1907-1988), Cícero Dias (1907-2003), Ben Ami (1911-1985), Lothar Charoux (1912-1987), Anatol Wladyslaw (1913-2004), Tomie Ohtake (1913), Orlando da Silva (1923), Poty (1924-1998), Antonio Gündemaro Lizárraga (1924), Babinski (1931), Luiz Carlos de Andrade Lima (1933-1998), Anna Bella Geiger (1933), Helena Wong (1938-1990), Henrique Leo Fuhro (1938-2006), Jair Mendes (1938), João Osorio Brzezinski (1941), Anna Carolina Albernaz (1943), Schwanke (1951-1992), Afonso Rodrigues (1953), Raul Cruz (1957-1993) e Luiz Carlos Brugnera (1966).

Alguns destes integram os lotes de obras de importantes artistas nacionais do acervo do MAC e tanto pelo número em que se encontram quanto pela representatividade que seus autores possuem no campo são apresentadas em grupos nesta exposição. São os casos das obras de João Zaco Paraná, Lívio Abramo, Clóvis Graciano, Cícero Dias, Lothar Charoux, Anatol Wladyslaw, Poty Lazzarotto, Antonio Gündemaro Lizárraga, Orlando da Silva, Maciej Babinski, João Osório Brzezinski, Anna Carolina Albernaz, Schwanke e Raul Cruz.

A produção plástica de João Zaco Paraná (artista de origem polonesa que fez carreira no Rio de Janeiro e é autor de uma das obras símbolos desse estado, “O Semeador”) está nessa exposição representada por uma série de estudos de figura humana datada de 1914, feitos em grafite ou carvão. Esses desenhos compõem o primeiro grupo de obras do acervo do MAC, as quais foram transferidas do acervo do extinto Departamento de Cultura do Estado do Paraná (origem da atual Secretaria de Estado da Cultura) em 1970 juntamente com as obras de João Osório Brzezinski que também constam desta mostra. Nesses trabalhos é possível perceber a técnica apurada do artista e observar como seu modo de pensar e fazer arte permaneciam sob influência da tradição acadêmica, enquanto parte do mundo ocidental experimentava as revoluções visuais dos movimentos modernistas.

O grupo de obras de Lívio Abramo se constitui em uma parte do mais importante acervo público de trabalhos desse artista do Brasil. O MAC possui mais de 200 trabalhos desse que é considerado um dos mais significativos gravadores nacionais. Fruto de uma doação feita na década de 90 por Dora Guimarães Duarte, esposa do artista, a coleção Lívio Abramo no acervo do MAC é composta por desenhos e gravuras (em diferentes técnicas) que datam desde 1930 até 1990, e se caracteriza em um dos melhores grupos de obras para se estudar a produção visual desse artista no país.

De modo similar, a coleção de obras de Anatol Wladyslaw (artista integrante ao lado de Lothar Charoux tanto do Grupo Ruptura quanto da criação de uma arte abstrato-geométrica no Brasil) é uma das mais importantes em suporte papel do MAC por permitir uma melhor compreensão do processo criativo deste artista, e foi doada ao museu por Blanka Wladsylaw, viúva do pintor.

As serigrafias de Cícero Dias em exposição assim como os trabalhos de Clóvis Graciano, e Maciej Babinski integram um grande lote de gravuras doadas ao MAC em 1995 pelo Banco Central do Brasil, do qual ainda constam obras de Alfredo Volpi (1896-1988), Aldemir Martins (1922-2006), Marcelo Grassmann (1925), Francisco Cuoco (1928), Tuneu (1948) e Charlote Gross.

As obras de Orlando da Silva, Anna Carolina Albernaz, Schwanke e Raul Cruz de momentos significativos da produção destes artistas passaram a integrar o acervo do MAC graças a doações dos próprios artistas, colecionadores ou familiares. Já os trabalhos de Lothar Charoux e Antonio Gündemaro Lizárraga foram prêmios-aquisição concedidos em diferentes edições do Salão Paranaense.

O grupo de trabalhos de Poty Lazzarotto, um dos artistas mais importantes do Paraná e do qual o MAC possui uma significativa coleção, é um dos mais interessantes desta mostra. Transferidos da coleção do Centro Cultural Teatro Guaira para MAC, ele se constitui num grupo de estudos feitos em diferentes materiais pelo artista para a cortina corta-fogo do Auditório Bento Munhoz da Rocha Netto (Guairão). Nesse grupo de estudos é possível observar as mudanças pelas quais algumas imagens hoje constantes na cortina passaram até atingirem o ponto no qual o artista se desse por satisfeito, e eles nos permitem, portanto, conhecer um pouco do processo criativo de Poty.

Dentre as obras restauradas quatro trabalhos recebem destaque na mostra devido ao valor histórico que possuem ou pela técnica em que foram confeccionadas.

A primeira, é um dos poucos trabalhos de artistas de renome mundial constantes do acervo do MAC. Trata-se de uma gravura em metal de uma das mais importantes séries da artista alemã Käthe Kollwitz. Essa artista, tomou como inspiração as revoltas camponesas ocorridas em seu país em 1524-1525 para criticar o contexto social alemão da primeira década do século XX e concebeu uma série de sete gravuras as quais ela denominou como integrantes da série “Guerra dos camponeses”. Essa série de trabalhos concebidos entre 1907 e 1908 teve sucessivas impressões e a obra do acervo do MAC corresponde à da segunda tiragem, considerada uma das melhores feitas dessa série. A obra “Os prisioneiros” é a última dessa série, e retrata um grupo de agricultores cativos, que haviam se insurgido em busca de melhores condições de trabalho, e que naquele momento encontravam-se amarrados em grupo, aguardando a execução da punição a que foram designados. Nesse trabalho é possível reconhecer o caráter dramático e expressivo que Käthe Kollwitz empregava em suas obras.

A segunda, “Retrato ideal de Antonio Gramsci” é uma obra a traço de Lívio Abramo, de 1932, na qual se pode observar o ritmo vigoroso e forte da mão do gravador, mas cujo real valor reside no vínculo com a vida do artista. Essa obra foi concebida em um dos anos mais marcantes na vida política de Lívio Abramo (ativo Trotskista e militante sindical), quando foi expulso do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e passou a se vincular mais fortemente a luta antifascista no Brasil. Nesse trabalho Abramo faz um retrato do político e pensador italiano Antonio Gramsci (1891-1937), um dos mais ativos antifascistas, que desde 1926 encontrava-se nas prisões da polícia fascista. Em 1932, uma grande ação de troca entre prisioneiros políticos foi tentada entre a Itália e a União Soviética, mas falhou, e Gramsci, que havia sido condenado a vinte anos de reclusão viu suas esperanças frustradas. O político italiano, que tinha uma saúde frágil, só recebeu liberdade condicional em 1934 e faleceu três anos depois.

O terceiro trabalho trata-se de um grupo de desenhos e anotações do artista argentino Ben Ami Voloj (1911-1985), considerado um dos cronistas da sociedade artística do sul do Brasil das décadas de 50 e 60. Parte da série “Salon de los pintores de hoy” na qual Ben Ami expõe suas opiniões e visões das mostras de artes visuais que ocorriam por aqui, esse trabalho, de um artista de particular interesse e ainda pouco estudado, é um exemplo da liberdade e criatividade que residem nos cadernos de anotações privadas dos criadores visuais.

O último, é um trabalho do artista, restaurador e professor mineiro Afonso Celso Carvalho Rodrigues, e que foi motivo de prêmio no 38º Salão Paranaense, em 1982. Esse trabalho, concebido com grafite e sangue, que oferta uma grande adversidade à restauração, é um exemplo da arte perecível, contemporânea e que se relaciona diretamente com uma das questões mais proeminentes de seu tempo. Concebida no período em que as descobertas sobre a Aids (do inglês: Acquired Immune Deficiency Syndrome) se tornavam alarmantes e criaram uma série de discussões em torno do homossexualismo, transfusão de sangue, promiscuidade sexual, e consumo de drogas no Brasil, essa obra, de aspecto singelo e forte conceito, é um marco de seu tempo no acervo do MAC.

Rosemeire Odahara Graça
Pinhais, maio de 2009

Local: MAC/PR
Abertura: 10/06/2009 às 19:00h
Encerramento: 26/07/2009
Horário de visitação: terça a sexta-feira das 10h às 19h – sábado, domingo e feriado das 10h às 16h

Mesa redonda: MAC – 248 obras restauradas
Local: Sala Theodoro De Bona – MAC/PR Rua Emiliano Perneta, 29, Curitiba
Data: 18 de junho às 18:00h