artur freitas, Obsolescências para o caderno g

Obsolescências na Casa Andrade Muricy

A obra de arte ou a obsolescência reafirmada | Artur Freitas
Publicado em 05/07/2009 no Caderno G da Gazeta do Povo

Acabo de ver uma exposição que gostaria de recomendar e comentar. Trata-se da mostra Obsolescências, com curadoria de Marília Panitz, que está em cartaz na Casa Andrade Muricy. A mostra, que integra o programa Rumos do Itaú Cultural, exibe parte do mapeamento da produção artística nacional e apresenta 30 obras de 15 artistas.

Mas comecemos do começo: Obsolescências, antes de tudo, é uma exposição basicamente afirmativa, na exata medida em que afirma, aliás sem pudor, que a experiência da arte depende, em qualquer instância, da experiência perceptiva, fenomenológica e intransferível das próprias obras de arte. Na mostra, em linhas gerais, as obras não são registros ou evocações de eventos externos ou ausentes. Ao contrário: há ali uma evidente confiança na presença de trabalhos que se afirmam justamente no espaço em que são dispostos e percebidos. A proposta tem seus riscos, claro. Afinal, num cenário artístico como o atual, em que a arte muitas vezes se quer mais real que a própria realidade, e que o literalismo das megaexposições beira a hegemonia institucional, pode mesmo parecer estranho que ainda haja quem confie num entendimento de arte-como-obra. Mas é assim, arriscando a obsolescência da própria proposta, que a exposição aposta em trabalhos que via de regra se resolvem numa espacialidade ostensiva e visual. Mas uma espacialidade, note-se, que não remonta a qualquer forma de inteligência da mão.

O artesanato, quando presente nessas obras, é mera operação técnica, que sequer depende do corpo ou do toque do artista. Assim, na maior parte dos casos, as obras presentes em Obsolescências assumem uma condição dupla: remontam a projetos e procedimentos projetuais, mas sem deixar de se afirmar no espaço efetivo da percepção.

Princípios poéticos

Não admira, portanto, que os melhores trabalhos expostos sejam precisamente aqueles que combinem essas duas condições, extraindo daí seus princípios poéticos, como no caso das obras de Diego Belda, Luciano Zanette e Rafael Alonso. Nesses artistas, é o confronto direto e sempre problemático entre arte e design que dá a medida da relação entre os sistemas projetivos e suas ocorrências concretas, efetivas. Em Diego, por exemplo, a mesa e as bolas de sinuca são apenas uma referência rápida, uma espécie de signo do consumo que logo se desmembra num jogo ótico e tátil de superfícies conhecidas. Já em Luciano, a mesa, convertida agora em problema escultórico, atua no limite entre a carga semântica dos objetos, de suas definições, e a forma ideal de suas funções. Ao passo que em Rafael Alonso o confronto se dá entre “funções” especificamente visuais: de um lado, a aparência de um painel de azulejos delicadamente polidos, e de outro, a realidade de chapas de madeira recobertas por elásticos comuns.

Para outros artistas, como Felipe Cohen, Nino Cais e Julia Amaral, a relação com a visualidade massiva e industrial se constrói na oposição mais ou menos direta entre o precário e o luxuoso. Em Cohen, por exemplo, a oposição é franca, mas quase literal demais: são quatro caixas de papelão perecível cujas variações formais abrigam elegantes blocos de basalto negro. Já com Cais, a banalidade dos baldes apropriados ecoa na própria instabilidade da instalação: a idéia é boa, e não deixa de ter algum impacto no procedimento e na ocupação do espaço, embora assuma o risco de se repetir como um truque de circo. Risco semelhante, aliás, corre Julia Amaral, que realiza diminutas esculturas em metal: na verdade delicadas e bizarras jóias que se fundiram a partir de moldes de pequenos animais mortos, como pássaros e aranhas.

Projeções

Quanto aos vídeos, Obsolescências também apresenta obras que em geral extrapolam a função de mero registro ou documentação, reafirmando assim a vocação da mostra em lidar com a espacialização ostensiva de situações projetuais. Afirmativos em relação às especificidades do espaço expositivo, os vídeos de Ana Holck e Letícia Ramos buscam mesmo uma relação de necessidade entre o imageado de suas projeções e a própria arquitetura do museu. Em Ana, o movimento obsessivo de destruição e reconstrução de uma parede é projetado em três paredes reais de uma mesma sala, num efeito trompe l’oeil que só não ocorre plenamente por problemas técnicos, como o baixo contraste das projeções. Letícia Ramos, por sua vez, em oposição à visualidade excessiva das grandes metrópoles, aposta na sutileza de algumas imagens urbanas que, fragmentadas em si mesmas, agora se espalham pelas paredes do museu, mediadas pela intervenção direta de algumas chapas de acrílico.

Num caso como noutro, e como de resto em quase toda a exposição, temos acesso a trabalhos que bem ou mal ecoam um entendimento afirmativo de arte, uma compreensão de arte-como-obra que, passando longe de qualquer forma de curadorismo autoritário, nos impele à presença e à experiência – o que não é pouco.

Artur Freitas é historiador da arte e professor-doutor da Faculdade de Artes do Paraná – arturfreitas@bol.com.br