Sobre a Bienal de Veneza 2009

Neide Marcondes

ABCA São Paulo

Veneza esfuziante, Veneza desordenada, repleta de turistas ávidos para vivenciar canais e vias dessa cidade. Veneza, com sinalização urbana insuficiente, especialmente para os que querem usufruir da Bienal 2009, Biennale: Fare Mondo, exposição internacional de artistas de vários ângulos do planeta, exposição esta sob um título heideggeriano, segundo o Jornal Exibart, giugno 2009. Uma Bienal que denota a crise, a crise internacional; por isso foi sentida a chamada des-globalização, marcante em vários pavilhões da exposição com obras glocalizadas, expressando a cor-local de sua região.

Após a maratona para a apresentação do crachá -do Giardini para o Arsenale e do retorno ao Giardini- sem informação convicta, percorrendo quilômetros entre vias e canais, agora à sombra dos plátanos pode-se fazer a geografia da Bienal. Para alguns galeristas descontentes, uma feira/quermesse de arte

Gillo Dorfles, historiador, crítico de arte, convidado especial da Bienal, assim se expressou: vi uma Veneza exaltante que renasce a arte, mas la pittura non c’è. A obra pictórica de Miquel Barceló, no entanto, compõe a instalação das salas do pavilhão da Espanha. Barceló apresenta também, em obra recente, vasos, urnas de terracota; pinturas de primatas, paisagens africanas e espumas de ondas do mar expressam o sentido da natureza/criação da vida, elaborado pelo artista espanhol. A pictoriedade também está presente na obra do artista brasileiro Delson Uchoa, em telas coloridas, iluminadas em decalques e colagens com signos e traços, que denotam a regionalidade brasileira. O pavilhão de Veneza exibe a instalação vítrea, colorida em murano, matéria e procedimento local e regional

As Instalações continuam em evento na geografia de grande parte desta Bienal de 2009. Logo á entrada do Giardini , a instalação Back to Fulness, de 1997 de Chen Zhen.O globo laminado tem convidativo acento que sugere uma volta circular pelo entorno.

O pavilhão da Bélgica indicia a Bienal da natureza, representando em fotos e pinturas aquareladas, plantas medicinais ,flores e ruas com nomes que denotam o uso destas espécies. Continuamos a maratona; adentrando ao pavilhão Biennale, elásticos, fios formam galactias de variadas dimensões circulares , com teias que ocupam todo o espaço da sala.A fragilidade da obra de Tomás Sarraceno faz com que pessoas se embranhem no espaço,diria, lúdico mas frágil e efêmero.

Claude Lévêque com seu Le Grand Soir elabora uma prisão ; grades e celas que estabelecem,segundo o autor, a radicalidade da sociedade e da situação anárquica da França. Nas laterais, bandeiras negras esvoaçam em espaço de ventiladores.

A instalação The Collectors ,dos Países Nórdicos,talvez ,ou melhor com certeza para uma reflexão da arte contemporânea hoje anuncia: For Sale .logo à frente e no interior da casa/pavilhão com sala , cozinha, biblioteca, estruturas e objetos semi-destruídos e distorcidos lá estão em aparência e forma, anunciando atenção de uma época.Assim também o Col –tempo-II,Projeto de Peter Forgacs,da Hungria examina ,em cena de contestação visível do dramático, em cenario simples, a natureza, o homem, o estranho estrangeiro.

German Pavilion 2009 , apenas com estruturas de móveis , em cores claras que designam aparentes lugares de uma casa; a figura de um gato está à espreita,O design estabelece outra função primeira para a arte ?

Bruce Nauman com Topological Gardens evoca nas salas , figuras/cabeças, mãos em atitude de apreensão; a terceira sala está uma fonte com cabeças, de cujas bocas em convulsão, jorra água em nervosidade e dramaticidade de esbanjamento.Tres são os conceitos: cabeças e mãos, som e espaço, fontes em neon nesta paisagem líquida.Atenção: o único pavilhão da Bienal com proibição de registro de fotos!!!

Em Pop,colorido e mesmo sinestésico,está o pavilhão que seria de descanso e alimentação, assinado por Jean Cale Live .

Interessante e significativo realçar: o Egito, ainda em sua monumentalidade, apresentou a glocalidade e trabalhou com materiais e processos da sua própria geografia.

A Biennale ,não do vazio, mas da crise, exibiu conceitos fortes, arraigados na preocupação natureza, na fragilidade e liquidês da arte contemporânea. Sinal dos Tempos!

Neide Marcondes

Veneza

primavera 2009