Zine 054: Debaixo de sete mil pés de laranja (lima)

Boa noite, a polícia federal prendeu hoje, em flagrante, uma mulher e seis homens que seguiam e roubavam pessoas que saíam de bancos no Centro de São Paulo… (a voz no canto da sala). Enquanto me ocupo de desligar os ouvidos da TV, imagino quantas pessoas (quiçá, você) exatamente agora estão sentadas bem ali no sofá ouvindo que Manuel Zelaya desconfia que… na tradição que se repete há 20 anos… na luta contra o câncer de mama, dia 7, cama de gato, a nova novela das 7, a casa aos pedaços, hoje arroz peixe e legumes, um sistema de ar quente sai da Amazônia em direção ao sul e amanhã faz sol na área clara. Terei 37 anos e não participarei das olimpíadas em 2016: o jeito é praticar arte-rofilismo, lançamento de edital, me-atiro ao alvo ou corrida dos 100m sem verba (com barreira).

(bocejo…) Penso no Rubem Alves* que chegou por e-mail dia desses: “Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakoviski suicidou-se.” Pensar é mesmo uma coisa muito perigosa… Mais uma xícara de café e então sento cá para matar a saudade e colocar a prosa em dia.

Eu sei, faz tempo que não escrevo, para tanto tenho uma coleção de desculpas e motivos perfeitamente razoáveis, mas nem por isso dignos de menção.  Continuo atualizando o site diariamente (para os mais “antenados”— adoro palavras “contemporâneas”— via twitter: minutos registram e repassam uma enxurrada de notícias assim que me caem aos olhos, ou para os que assinaram a newsletter**, todos os dias de manhã junto com o pão e o café. Mas e o zine? Pois é dessa urgência que me desfaço.

Depois de 30 horas discutindo os limites da arte e tecnologia, ainda ontem pensei nisso, no quanto a arte na qual eu acredito é anacrônica, atemporal. Essa arte que corre atrás dos avanços – contemporâneos, (neo)modernos, tecno(i)lógicos — ou das notícias como um coelho corre atrás da cenoura, também se desfaz na mesma velocidade em que acontece, para que no fim de um ano (menos um!) tenhamos uma nova conferencia in the royal society of putting things on top of other things***. Já dizia o amigo Guga Ferraz: “a gente não tem que correr atrás, tem que correr na frente, quem corre atrás já está atrasado…” Mas insisto na pergunta: atrasado… para que mesmo?

Vá lá, sem entrar na conversa da sociedade do espetáculo, deixemos o Guy Debord descansar em paz, que nem ele se aguentou. Divido com vocês com um tiquinho de um livro, outro clássico: O Retorno do Real, do Hal Foster. Estava lendo ontem, no ônibus*** e sublinhei esse parágrafo, no capítulo 7 (Whatever happened to postmodernism?), a tradução é de minha própria autoria, conta e risco:

“Tal foi o efeito CNN da guerra do golfo em mim: repelido pela política, eu era tomado pelas imagens, por uma psico-tecno-excitação que me prendia como uma bomba inteligente e seu espectador. Uma excitação de maestria tecnológica (minha mera percepção humana transformada em visão de super máquina, capaz de ver o que destrói e destruir o que vê), mas também uma excitação de uma dispersão imaginária o meu próprio corpo da minha
subjetividade. Claro que quando as telas das bombas ficaram escuras o meu corpo não explodiu. Ao contrário, ele foi salvo: numa clássica metáfora fascista, meu corpo, minha subjetividade, era afirmado pela destruição de outros corpos.” (…)

Mas e a arte? E a arte? Pois, continua aqui, absolutamente dependente do meu corpo e do seu,  ainda que sem nenhuma urgência, aguardando como um parangolé que alguém a vista com a alma.

No interlúdio, seguem as notícias que continuam a nos convidar a pressa, sobretudo os editais e as vernissages (antes que o vinho acabe):

Em Curitiba, ainda não fui, mas quero ir:

PERCO A CABEÇA – Individual de Ana González nACASA (perdi a abertura, mas não perco a exposição)

Amanhã, dia 7, Karaoke Coral + França.br = Curitiba recebe vídeo-instalação inédita no país

de 8 a 11 de outubro, sempre às 19:30 na Cinemateca = mostra de vídeos da Bienal VentoSul

dia 9 = palestra CINEMA MUDO DE HORROR e mostra CÂMERA MALDITA na EMBAP

de 5 a 11 de Outubro, 4º FESTIVAL DO PARANÁ DE CINEMA BRASILEIRO LATINO – 2009

ma-ra-vi-lha: Literatura e Jornalismo na programação da 28ª Feira de Livros de 6 a 11 de outubro no Sesc da Esquina

Carlos Alonso – Hay que comer no MON

XXI Ciclos = exposição de fotografias, até 25 de outubro no Beto Batata

Também vale conferir:

1, 2, 3 EDITAIS E SELEÇÕES DO MINISTÉRIO DA CULTURA

Inscrições abertas para a ESPECIALIZAÇÃO EM HISTÓRIA DA ARTE MODERNA E CONTEMPORÂNEA na Embap

bolsas no Center for Creative Photography, no Arizona.

até o dia 10 de novembro de 2009: Edital de Propostas para Exposições na Casa Andrade Muricy em 2010

“Artistas Contemporâneos Curitibanos 2009” no Shopping?

Fórum Internacional de Arte e Tecnologia / Instituto Sergio Motta – São Paulo nos dias 3 e 4 de novembro:

no Prêmio Porto Seguro de Fotografia: STILL LIFE, de Tom Lisboa

até 12/10 chamada para ENVIO DE ARTIGOS p/ o 4o ciclo de investigações da pós graduaçao em artes visuais UDESC:

:)

Agora me despeço com a desimportância das notícias que já se transformaram em uma telecomédia de péssimo gosto: mas que é isso dona rita, a fufa nao é nenhuma cadela…toma lá dá cá, e no rala rola, vivendo e dançando dois
pra lá e dois pra cá…

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Rodapé:

* Recebi do amigo Ademar um texto do Rubem Alves: a saúde mental intensamente vivida. para ler, clique aqui

** No ônibus: para os que não sabem, tenho viajado semanlmente à Florianópolis, ida e volta em círculos rumo ao mestrado em processos artísticos contemporâneos na UDESC. para saber mais sobre o programa e sobre as pesquisas (inclusive a minha) desenvolvidas por lá, participe do ciclo de investigações, é agora em novembro, boralá!

*** Monty Python: The Royal Society for Putting Things on Top of other Things: um dos meus scketches preferidos da trupe no youtube

**** O zine é uma compilação de reflexões e notícias sobre artes visuais editadas por mim. Para aqueles que querem receber as notícias do dia, sem ter que esperar pelas minhas elocubrações eventuais, é só assinar a newsletter: um email com o resumo do dia (se houver) chegará fresquinho pela manhã à sua caixa postal, claro que é grátis.

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