Carta-manifesto Do Coletivo ARTIXX – Arte entre pessoas

Caros colegas, há tempos falamos nisso, mas vale insistir:
publico cá esse gesto do coletivo artixx, não apenas por concordar com o seu conteúdo, mas por acreditar, em toda a minha descrença nas iniciativas públicas ou privadas, que para que isso mude é preciso que nós mudemos, a começar por estabelecer como regra a não aceitação ou participação em projetos que não nos dêem condições dignas de trabalho.

Nicole Lima

Carta-manifesto aos paranaenses e em especial a categoria dos produtores culturais.

Do Coletivo ARTIXX – Arte entre pessoas

A quem interessar;

Referente ao Edital de Exposições do Grupo Livrarias Curitiba, previsto para 2010.

“NÃO: isto não é Cultura”

Pierre Bourdieu no livro “A economia das trocas simbólicas” 1 disserta sobre o mercado de obras de arte analisando o sistema de arte, sua formação e evolução histórica concluindo, entre outros detalhes, sobre componentes deste sistema específico que tocou-nos diretamente ao lermos o que foi chamado de “Edital de Exposições 2010 do Grupo Livrarias Curitiba”.

O autor marca um período, o Sec. XIV como início de um processo de “autonomização” do artista que teria produzido, na desejada separação da tutela da Igreja e do Estado, um outro aparato de “validação” da obra de arte com determinados efeitos colaterais. Então, com o desenvolvimento cultural sob novos parâmetros que passaram a incluir uma burguesia que foi se afirmando na história, o sistema de arte, segundo afirma Bourdieu, assumiu características do pensamento e das práticas que se impunham no Ocidente dados no formato em que se construía o processo civilizatório de que somos herdeiros.

Se antes a Igreja e o Estado davam conta de impor critérios de validação da arte, no novo modelo se acrescenta a burguesia e seus instrumentos ideológicos: o mercador, o crítico e a academia. P. Bourdieu afirma ainda que de forma descontínua esta fórmula é a base da “indústria cultural” apontada por Adorno e Horkheimer no século XX!

Foi baseado nesta ordem teórica e no papel de produtores de arte que fizemos, no Coletivo ARTIXX esta avaliação do “Edital de Exposições 2010 do Grupo Livrarias Curitiba”.

O sistema social e econômico coloca a arte e, portanto, o trabalho e a vida do artista, num determinado nível que, por influências iluministas, determina para ela classificações na chamada infra-estrutura numa lógica puramente economicista, ou seja, pragmaticamente excluindo o conteúdo subjetivo que representa a arte livre, colocada abaixo dos valores puramente pragmáticos da organização social dominante, destituídos de transcendências e pobres, por isso mesmo.

É impossível convencer o artista consciente de uma coisa assim, oposta a história da arte e, portanto, aqueles que são cooptados são os que não fazem a reflexão honesta de si mesmos e de seus trabalhos, o que determina o nível ético de uns e de outros.

Considerando que a arte:

“É uma forma universal de expressão e comunicação, que preserva e promove a diversidade e a identidade cultural e espiritual das sociedades, reforçando o sentido de pertencimento à humanidade; é inseparável do ato de viver, e se justifica pelo seu próprio existir, não estando a serviço de qualquer ideologia, nem sendo ferramenta ou instrumento do que quer que seja; contribui para formar comunidades de emoção que nos une pelo afeto; é produto da imaginação criadora e problematizadora do real; tem papel fundamental na religação da sociedade, na reorganização do tecido social desfeito pela mercantilização das relações, pelo individualismo e pela violência; é uma linguagem privilegiada para comunicação entre os jovens; possibilita a vivência criativa, o sonho e a utopia, abrindo uma trilha para o reencantamento do mundo”; 2

O artista que em pleno terceiro milênio ainda permite ver seu trabalho reduzido a uma mercadoria ordinária, aceita ser mero acessório de negócios intermediados a necessidades secundárias, servindo mais a acumulação de poder e de capital que são, sabemos, infortunadamente, cada vez mais a mesma coisa.

Hal Foster, em seu texto “Leituras em resistência cultural” acrescenta à nossa reflexão:

“Embora o governo possa oferecer apoio subsidiado, a arte é, hoje em dia [...] o brinquedo de patrocinadores (de sociedades acionárias) cuja relação com a cultura é menos de uma nobre obrigação do que uma manipulação aberta como signo de poder, prestígio, publicidade. Aparentemente, como Jean Baudrillard sugere, o controle da acumulação não é suficiente para essa classe, ela deve controlar a significação também” e conclui: “o capital penetrou inteiramente no signo”.

O Coletivo ARTIXX tem a dizer sobre o Edital do Grupo Livrarias Curitiba de 2010 que, ao questionarmos sobre os objetivos que levaram o Grupo a se envolver neste tipo de empreendimento artístico cultural, sublinhamos algumas questões que aqui seguem. Partimos do princípio do olhar das Livrarias Curitiba sobre a produção artística local, e questionamos se esta instituição comercial tem algum conhecimento sobre a logística necessária para administrar algo como o que propõe. E perguntamos:

1. 1. Qual é a intenção das Livrarias Curitiba?

Ao não se responsabilizar por nada e apenas se promover às custas de alguns artistas sedentos por um espaço em que possam mostrar suas obras;

2. Qual é o incentivo a que se refere o edital?

Ao não se responsabilizar pela integridade física das obras; não fornecer equipamentos básicos para a montagem e sequer providenciar coisas simples como fita crepe, cola, tesouras que as livrarias, imaginamos, terem de sobra.

O artista é responsável pela montagem e desmontagem; pela divulgação do evento; pelo transporte de ida e volta; pela confecção de um material gráfico que possa registrar o evento; e que além de produzir seu trabalho ainda arca com todos os custos e despesas; enfim, o artista faz praticamente tudo.

3. O que a empresa pensa sobre o profissional de Arte?

A visão que esta tem sobre o artista é antiprofissional, obrigando-o à condição de trabalhar sem honorários! Submete, conforme o edital, o artista como escravo, ampliando aquela visão sombria de que a atividade artística é supérflua e a de que quem oferece um lugar de exposições está fazendo um grande favor. O artista, enfim, não é tratado como um produtor e sequer como trabalhador sério.

4. O que esta empresa, conhecida por comercializar o produto maior dos escritores, oferece aos artistas?

Uma instituição que comercializa produtos culturais e que pretende abrir um espaço cultural deveria, antes, se cercar de conhecimento técnico e das condições essenciais para ter mais respeito com os profissionais envolvidos.

5. O que podemos concluir como artistas?

Quando levantamos estes questionamentos, nos referimos a este edital, sabendo que isto faz coro com a maioria dos editais e de outras iniciativas que vemos pelo país inteiro, ocupando, nem sempre de forma competente, o enorme vazio deixado pela ausência das políticas culturais que o Estado, por pura omissão e descaso gerou perdas irrecuperáveis para essa categoria deixando-nos entregue à própria sorte.

Podemos, baseados na nossa responsabilidade de cidadãos conscientes do trabalho que realizamos e da nossa esperança em um futuro melhor, fazer da intenção deste instrumento de uso e abuso das nossas capacidades, por uma instituição do mercado cultural, redigir este protesto como a única ação possível diante daqueles que não nos vêem com o devido respeito e, pior ainda, aqueles que, por sua indiferença irresponsável, desprezam os que produzem cultura, esta que é sem dúvida o maior patrimônio de uma civilização.

Curitiba, fev. 2010

Carla Assis

Elisete Iunskovski

Giovana Casagrande

Regiane Bressan

Rogério Guiraud

Sergio Moura

www.artixxaoarlivre.blogspot.com