les jeux sont faits 2008

por nicole lima

Les jeux sont faits, os dados foram lançados. Essa frase é a última de um texto do Ferreira Gullar na Folha Ilustrada de ontem: “Quando digo que a vida não é newtoniana e, sim, quântica, sei que não estou fazendo uma afirmação científica, mas, como poeta que às vezes sou, valho-me de uma metáfora para baratinar a cabecinha do próximo e fazê-lo se dar conta de que, muitas vezes, dois mais dois são cinco.”

Acho engraçado como os textos caem sempre como aquele último pedaço de pizza esquecido na geladeira, bem na hora da fome. Esse ontem me fez pensar muito antes de dormir. Tenho contado com a sabedoria popular na hora de olhar o resultado dos editais de que tenho participado, ainda que quase sempre na categoria “ouvinte”, e ainda acho que a melhor frase é a do Dunga (o técnico, não o anão): “no futebol há sempre dois times em campo: os que ganham e os que justificam” ou ainda a do Nelson Rodrigues: “para um jogador de caráter, uma vaia é um afrodisíaco infalível.”

Ontem mesmo fui olhar no Google e lá estava ele: outro sonoro “não”. Sempre penso que eles deveriam vir acompanhados de algo gentil como “obrigado, volte sempre”, mas não é não, aliás, não é nada: é passar o olho e procurar seu nome várias vezes, pensando que podem ter errado a ordem alfabética, ou que podem ter escrito de trás pra frente, ou em outro idioma, quem sabe? Mas a vida não é lógica, é quântica, né Gullar? O fato é que temos que lidar com isso quase que semanalmente, quando não somos nós, são os amigos, um dia passa, outro não passa, entra no salão de lá e fica de fora no daqui, enfim, você não morre José, você é duro José. E haja Sedex!

Obviamente é sempre mais confortável nos agarrarmos nas desculpas: “a comissão julgadora não teve critério.” Como não teve critério?????????? Mesmo que tenha sido um péssimo critério, certamente houve um. Outra freqüente é: “são sempre os mesmos, eles só lêem os nomes, nem avaliam os projetos” sinceramente, não acredito nisso, posso ser medíocre muito mais vezes do que consigo ser minimamente genial, mas não consigo imaginar que um trabalho forte de verdade vá perder a vez para outro menos interessante. Claro que todo julgamento é subjetivo, que toda subjetividade está presa a certos paradigmas e por aí vamos de mãos dadas, mas tem gente boa e séria julgando esses trabalhos, tem que ter! Afinal, que interesse há justamente na arte para que eles sejam taxados de reacionários? Se existe uma revolução possível ela não está na política, nem na filosofia. É irmão, sobrou pra nós.

Bueno, vou lá chorar na cama que é lugar quente, e viva o bom humor!

Bom dia

Bom dia

Bom dia

(é um mantra, repita quantas vezes for necessário)

Enquanto isso, mais pérolas futebolísticas, afinal futebol também é arte, assim como a culinária e a malandragem:

“A única diferença da Política para o Futebol é que, na Política, por falta de bola, eles se chutam uns aos outros.” Heitor Villa-Lobos

“O difícil, vocês sabem, não é fácil.” Vicente Matheus

“Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado” Neném Prancha

comentários:

Joao Debs, em 17/11/2008: Posso sem algum esforço de simpatia admitir que seus ensaios são suficientemente possiveis, outros não. Mas citar Ferreira Gullar e Dunga decidimente foi pra mim de uma infelicidade dominical. Mas não o culpo em relação ao primeiro, o qual já nutri quanticamente uma admiração. Quanto ao segundo, dúvido da proesa da frase. Mas quanto a você ? Bem, melhor dar um tempo. Isso porque a frase do Nelson Rodrigues o  salvou, ou seja, aqui vai minha vaia: Uuuuuuuuuuuuu!

A míssiva não é pessoal, talvez, um “afrodisíaco” não sei se “infalível”.

Amplexos,

João.

P.S. Ora era, ou orra erra.

Rodrigo Madeira, em 17/11/2008:

algumas outras:

nelson rodrigues: “a pelada mais sórdida tem uma complexidade shakespeareana.”

vicente matheus: “não, o sócrates é invendível, incomprável e imprestável!”

tostão: “é o resultado - sempre - que faz o comentário”

eu: o futebol é tão belo porque pode ser injusto como a vida.

Orlando Tosetto, em 17/11/2008:
Falta humor ao sujeito, claro. Se a vida misturou o Dunga com o futebol, podemos agüentar qualquer coisa. E o Ferreira Gullar, que metido, hein? Citando em francês o que sempre foi bom Latim: alea jacta est.

Terence keller, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

Continuando na política de roubar frases dos outros, eu, desmemoriado, repito a frase de um sujeito que nao lembro o nome, mas o nome nao importa, especialmente se vc for como eu, que esquece nomes… vamos lá:

Na premiação do festival de curtas do Rio, que aconteceu no domingo dia 9/11, um cineasta premiado subiu ao palco e disse algo mais ou menos assim: “eu frequento diversos festivais e em quase todos eles discordo dos filmes premiados, estranhamente hoje estou aqui recebendo o prêmio. Isso me assusta. Então, se você gostou do meu filme, pode me dar os parabéns, mas se gostou que meu filme recebeu o prêmio, parabenize os jurados.”

Daniel Barbosa, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

olá,
minha cara colega, não dá pra ganhar todo dia…
mas o melhor é não poder ganhar sempre!…
eu acho que editais e coisas do gênero são válidos até determinado ponto, que eu ainda não sei qual é! Mas acho que o que está faltando para estes editais  virarem só mais um meio de produzir seja lá o que for, é viver sem eles, os editais.

as instituições são úteis? até que ponto?
expor, ganhar dinheiro pra produzir, viver de buscas no google e não dormir direito até preencher todos os requisitos para ser classificado são alguns meios, mas não os únicos e tão pouco os ultimos!

O negócio é fazer por conta, sem contar com as burrocracias de muitas instituições!!!
bolsa produção, salão paranaense, brde, mecenato e tudo que é coisa do gênero aqui nesta cidade é pra muito estatus - não sei pra quem!-, e pouca reflexão e produção.

Não sou contra estes meios, mas quando quero fazer algo, eu vou lá e faço, pronto! deu-deu, não-deu não-deu!

conheci uns caras lá em SP, que faziam um trabalho super fodão individualmente e coletivamente também, mas que depois que entraram na onda dos editais passaram a só fazer trabalhos para o SESC, a prefeitura y otras cositas mas. Agora continuam os amigos mas mas os trabalhos são sempre com um objetivo artistico, e quando eles dizem artistico, eles não têm medo de falar de grana. de viver de arte ou de princípios e questões éticas.

enfim, um papo meio de boteco, mas, quer fazer, vai lá e faz!

e um grande beijo pra você

Nicole Lima, em 18/11/2008:

oi daniel!
vc sabe que vc tem razao? essa vida atrás dos googles é meio esquisita, ainda mais pra mim, que acredito que pra bom escritor meia página basta.
por outro lado eu tenho aprendido muito com os editais, o legal de escrever projetos é que de alguma forma eles nascem e tomam corpo, aí mesmo quando nao dá em nada, dá em alguma coisa que é justamente o pontapé inicial para eu arregaçar as mangas e colocar a mao na massa.
:)
o texto eu escrevi um pouco por mim, que tive insonia no domingo, outro tanto pelos amigos que ouço reclamar sempre. mas tb porque gosto de colocar as conversas de boteco na mesa, me sinto melhor sendo humana quando estou dividindo minhas humanices com outros.

Paulo Koehler, em 19/11/2008:
No mesmo clima dos “excluídos” do reconhecimento social ao que fazemos, envio este “versinho” do João Cabral de Mello:

” Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e o não fazer
mais vale o inútil do fazer…”

quer comentar tb?

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Aly Muritiba: Cinema é coisa de angustiado 2008

Fazer cinema independente e sem dinheiro é um exercício angustiante. Apesar de ter um estômago de avestruz prevejo uma morte lenta e dolorosa para mim em decorrência de complicações gástricas. Isso porque o amor que devoto ao cinema é daqueles românticos, daqueles que só podem acabar em tragédia. Exagero? Vejamos então.

Angustia número 1: Antes de se fazer um filme, o pretenso cineasta passa pela angústia de não estar fazendo nada a não ser olhar uma folha em branco. São dias e dias lapidando um roteiro, que depois de pronto e julgado brilhante pelo seu autor, será submetido ao crivo dos possíveis colaboradores (amigos). Neste momento começa a

Angústia número 2: As pessoas recebem o texto, dizem que vão ler e a isso se sucedem semanas de angustiante silêncio. Pensa-se, “eles odiaram, eu sou um escritorzinho de m.” etc. Até que se encontra os tais colaboradores bebendo num boteco e descobre-se que o roteiro não foi lido porque -xi, meu PC queimou, manda outra vez. Ou -recebi, mas não abriu, manda num outro formato…e por ai vai. Passada esta etapa, que é a de convencer as pessoas a trabalharem de graça no teu projeto, começa a fase da

Angústia número 3: Fazer com que os colaboradores (amigos), que trabalham de graça no teu projeto, convençam outras pessoas (desconhecidos) a também trabalhar de graça. A esta etapa chama-se comumente de Pré-produção. Eu prefiro chamar de fase da angústia número 3. É a etapa em que pessoas bem vestidas experimentam a sensação da mendicância. Pede-se tudo, oferece-se quase nada, e a probabilidade de receber nãos é tão grande, que é recomendável pedir apoio de alguma farmácia para o fornecimento de paracetamol, gastrox e afins. São semanas e semanas de reuniões, planejamentos, cafés, sorrisos, testes, persuasão, caça a atores experientes o suficiente para o papel dispostos a trabalhar “-por amor a arte Sabe como é? “. E eis que chega o grande dia, quer dizer, semana.

Angústia número 4: O primeiro dia de gravação é sempre o pior (pelo menos pra mim). Parece que tudo vai dar errado. Planeja-se uma externa, o céu ameaça chuva. Planeja-se uma interna, o refletor queima. Até a maquilagem que aquela tua colaboradora (amiga, amante, mulher, irmã… avó?) ficou de emprestar, é esquecida. Ai é que o verdadeiro diretor é posto à prova. Se der “piti” e adiar as filmagens por causa da maquilagem (entendam metaforicamente), sem futuro…, a equipe o abandona. Se não der “piti”, sem futuro muito longo, morrerá de gastrite. Os bons diretores têm gastrite. Kielowsky, Kurosawua, Glauber, Buñel, Ozu e tantos outros tiveram. Eu e alguns colegas nos entupimos de café na esperança de adquirir uma e entrar pro panteão. Mas continuando… adapta-se, muda-se os planos, as ordens do dia, as decupagens (pra que fazer pré?) e as gravações terminam, e começando a

Angúsita número 5: Esta fase é de matar. Neste momento descobrem-se os planos não filmados, os erros de continuidade, a falta de rítimo, etc. E o roteiro que foi escrito com tanto esmero é reescrito por um cara estranho chamado editor (o cara que faz o que pode e o que não pode para o filme não parecer um exercício de doidos). E o som? Sabe quantas horas se passa num estúdio improvisado mixando o som de um filme (e olha que eu nunca fiz um longa)? Ai o diretor tem que decidir entre 198 opções qual é o rangido de porta perfeito para a cena em que a mocinha sai do banheiro. Ai o diretor decide se o estampido do revólver deve ser mais
grave, agudo ou médio se é do ponto de audição da vitima, do algoz ou da platéia…. aff!!!! E o tratamento de imagem? Já abriram um programinha chamado After efects? Não abram sem alguém experiente por perto. Ai você descobre que aquela cena que teu diretor de fotografia disse -resolve na pós., não tem solução. Enfim, uma angústia só e que pode levar meses ou, em alguns casos, anos. E eis que o filme fica pronto.

Angústia número 6: A estréia. Fase em que o cineasta tira a roupa para um monte de gente que não faz a mínima idéia (e nem deveria mesmo fazer) das etapas anteriores. Fase em que o cineasta será julgado sumariamente por pessoas que estavam tocando suas vidas nos últimos seis meses, enquanto o cineasta sofria com suas angústias. O olhar do público, o aplauso final, o tapinha no ombro (será consolo?). O alívio. Enfim o filme está concluído. O alívio. Alívio?

Angústia número 7: Assim que termina a exibição do filme o pretenso cineasta passa pela angústia de não estar fazendo nada novamente. Ele olha então uma folha em branco e

Angustia número 1:
Alguma semelhança com a vida a dois?
Entende agora o motivo pelo qual eu amo me angustiar de cinema…. e de amor?

Nicole Lima, sobre genes defeituosos: 2008

“Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos”

(retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros)

Dia desses uma amiga disse o seguinte: “Eu queria participar do projeto, mas eu não sou artista”. Aí lembrei do João, que disse na sua aula inaugural em uma universidade: “Fotografia não é arte.” E de uma entrevista com um fotógrafo de natureza que me respondeu quase defensivamente à mesma questão dizendo que o que fazia era apenas “documentar”. E que na semana passada me perguntaram: “Mas esse é um projeto de design ou de arte?” E hoje ainda, no msn com outro amigo, o Orlando: “você sabe, eu sou retrógrado, vivo mentalmente nos anos 20, e não estou inteiramente convencido de que cinema seja arte…” Eu poderia citar exemplos ad infinitum, até porque essa questão sobre os limites e deslimites da arte é mais velha do que todos nós. Mas não se trata disso. O que me intriga é justamente esse incômodo, essa insistência.

Quase sempre tenho a impressão de que por trás da frase “ah, mas eu não sou artista” há uma percepção de que nós artistas (sim, eu sou artista, ar-tis-ta) nascemos dotados de um gene especial 406×765hktyu-899-yy/xxx, que os outros seres humanos “normais” não têm. Assim como separamos os que nascem com orelhas de abano do time de futebol, e os que têm dentes protuberantes dos concursos de beleza, a sociedade se organiza entre os que têm ou não têm o dito “dom” da criatividade, ou a habilidade de empunhar um lápis sobre uma folha em branco e desenhar virtuosamente. Mas como sabemos que exercitar o tal gene defeituoso demanda tempo, ser artista raramente se faz uma atividade rentável. Ou seja: é melhor evitar. Aí nos agarramos na borda da piscina, para nadar onde não dá pé sem nos afogar: Quem gosta de desenhar, faz arquitetura. Quem gosta de escrever, faz jornalismo. Quem quer ser fotógrafo, estuda comunicação. Quem estuda arte mesmo só pode ser porque mora com a mãe e não quer trabalhar, coisa de vagabundo. Trabalhador que se preze tem curriculum, artista tem portifolio (e no flickr, porque imprimir custa caro).

Mas também tem, claro, o preconceito às avessas. Nas terças feiras eu dou aula particular de inglês para um juiz e para esposa. Eis o preconceito: Aulas de inglês? Mas você não disse que era fotógrafa? Em dose dupla: juiz? Argh. Esse povo acha que pode passar por cima de todo mundo, só porque é juiz. E não adianta nada eu contar pra vocês que ele é juiz mas é legal, que estuda música e vai mergulhar sempre que sobra um tempo, que vocês já vão logo rebater com um “ah, mas é exceção”. Até eu, sempre que vou prencher fichas de cadastro, nunca sei o que escrevo no item profissão: arquiteta, urbanista, professora, pesquisadora, coordenadora, fotógrafa, designer, modelo de comerciais de margarina, ex-mulher de piloto de helicóptero, escritora… Ahhhhhh, desisto. Agora faço graça: cada vez preencho com uma coisa diferente, de acordo com o meu humor ou a quem devo impressionar.

Não acredito que essa percepção do ser humano que teima em se nomear e se dividir entre ser criativo ou funcional vá mudar (pobres designers, arquitetos, publicitários, documentaristas…). Mesmo que mudasse, não seria uma evolução: continuaríamos nós mesmos, vistos de outro ângulo, já que andamos em círculos. Mas fica o convite à reflexão: quem é você e o que o torna diferente de mim?

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