les jeux sont faits 2008

por nicole lima

Les jeux sont faits, os dados foram lançados. Essa frase é a última de um texto do Ferreira Gullar na Folha Ilustrada de ontem: “Quando digo que a vida não é newtoniana e, sim, quântica, sei que não estou fazendo uma afirmação científica, mas, como poeta que às vezes sou, valho-me de uma metáfora para baratinar a cabecinha do próximo e fazê-lo se dar conta de que, muitas vezes, dois mais dois são cinco.”

Acho engraçado como os textos caem sempre como aquele último pedaço de pizza esquecido na geladeira, bem na hora da fome. Esse ontem me fez pensar muito antes de dormir. Tenho contado com a sabedoria popular na hora de olhar o resultado dos editais de que tenho participado, ainda que quase sempre na categoria “ouvinte”, e ainda acho que a melhor frase é a do Dunga (o técnico, não o anão): “no futebol há sempre dois times em campo: os que ganham e os que justificam” ou ainda a do Nelson Rodrigues: “para um jogador de caráter, uma vaia é um afrodisíaco infalível.”

Ontem mesmo fui olhar no Google e lá estava ele: outro sonoro “não”. Sempre penso que eles deveriam vir acompanhados de algo gentil como “obrigado, volte sempre”, mas não é não, aliás, não é nada: é passar o olho e procurar seu nome várias vezes, pensando que podem ter errado a ordem alfabética, ou que podem ter escrito de trás pra frente, ou em outro idioma, quem sabe? Mas a vida não é lógica, é quântica, né Gullar? O fato é que temos que lidar com isso quase que semanalmente, quando não somos nós, são os amigos, um dia passa, outro não passa, entra no salão de lá e fica de fora no daqui, enfim, você não morre José, você é duro José. E haja Sedex!

Obviamente é sempre mais confortável nos agarrarmos nas desculpas: “a comissão julgadora não teve critério.” Como não teve critério?????????? Mesmo que tenha sido um péssimo critério, certamente houve um. Outra freqüente é: “são sempre os mesmos, eles só lêem os nomes, nem avaliam os projetos” sinceramente, não acredito nisso, posso ser medíocre muito mais vezes do que consigo ser minimamente genial, mas não consigo imaginar que um trabalho forte de verdade vá perder a vez para outro menos interessante. Claro que todo julgamento é subjetivo, que toda subjetividade está presa a certos paradigmas e por aí vamos de mãos dadas, mas tem gente boa e séria julgando esses trabalhos, tem que ter! Afinal, que interesse há justamente na arte para que eles sejam taxados de reacionários? Se existe uma revolução possível ela não está na política, nem na filosofia. É irmão, sobrou pra nós.

Bueno, vou lá chorar na cama que é lugar quente, e viva o bom humor!

Bom dia

Bom dia

Bom dia

(é um mantra, repita quantas vezes for necessário)

Enquanto isso, mais pérolas futebolísticas, afinal futebol também é arte, assim como a culinária e a malandragem:

“A única diferença da Política para o Futebol é que, na Política, por falta de bola, eles se chutam uns aos outros.” Heitor Villa-Lobos

“O difícil, vocês sabem, não é fácil.” Vicente Matheus

“Se macumba ganhasse jogo, o Campeonato Baiano terminava empatado” Neném Prancha

comentários:

Joao Debs, em 17/11/2008: Posso sem algum esforço de simpatia admitir que seus ensaios são suficientemente possiveis, outros não. Mas citar Ferreira Gullar e Dunga decidimente foi pra mim de uma infelicidade dominical. Mas não o culpo em relação ao primeiro, o qual já nutri quanticamente uma admiração. Quanto ao segundo, dúvido da proesa da frase. Mas quanto a você ? Bem, melhor dar um tempo. Isso porque a frase do Nelson Rodrigues o  salvou, ou seja, aqui vai minha vaia: Uuuuuuuuuuuuu!

A míssiva não é pessoal, talvez, um “afrodisíaco” não sei se “infalível”.

Amplexos,

João.

P.S. Ora era, ou orra erra.

Rodrigo Madeira, em 17/11/2008:

algumas outras:

nelson rodrigues: “a pelada mais sórdida tem uma complexidade shakespeareana.”

vicente matheus: “não, o sócrates é invendível, incomprável e imprestável!”

tostão: “é o resultado - sempre - que faz o comentário”

eu: o futebol é tão belo porque pode ser injusto como a vida.

Orlando Tosetto, em 17/11/2008:
Falta humor ao sujeito, claro. Se a vida misturou o Dunga com o futebol, podemos agüentar qualquer coisa. E o Ferreira Gullar, que metido, hein? Citando em francês o que sempre foi bom Latim: alea jacta est.

Terence keller, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

Continuando na política de roubar frases dos outros, eu, desmemoriado, repito a frase de um sujeito que nao lembro o nome, mas o nome nao importa, especialmente se vc for como eu, que esquece nomes… vamos lá:

Na premiação do festival de curtas do Rio, que aconteceu no domingo dia 9/11, um cineasta premiado subiu ao palco e disse algo mais ou menos assim: “eu frequento diversos festivais e em quase todos eles discordo dos filmes premiados, estranhamente hoje estou aqui recebendo o prêmio. Isso me assusta. Então, se você gostou do meu filme, pode me dar os parabéns, mas se gostou que meu filme recebeu o prêmio, parabenize os jurados.”

Daniel Barbosa, em 17/11/2008: dadinho é o katzo!

olá,
minha cara colega, não dá pra ganhar todo dia…
mas o melhor é não poder ganhar sempre!…
eu acho que editais e coisas do gênero são válidos até determinado ponto, que eu ainda não sei qual é! Mas acho que o que está faltando para estes editais  virarem só mais um meio de produzir seja lá o que for, é viver sem eles, os editais.

as instituições são úteis? até que ponto?
expor, ganhar dinheiro pra produzir, viver de buscas no google e não dormir direito até preencher todos os requisitos para ser classificado são alguns meios, mas não os únicos e tão pouco os ultimos!

O negócio é fazer por conta, sem contar com as burrocracias de muitas instituições!!!
bolsa produção, salão paranaense, brde, mecenato e tudo que é coisa do gênero aqui nesta cidade é pra muito estatus - não sei pra quem!-, e pouca reflexão e produção.

Não sou contra estes meios, mas quando quero fazer algo, eu vou lá e faço, pronto! deu-deu, não-deu não-deu!

conheci uns caras lá em SP, que faziam um trabalho super fodão individualmente e coletivamente também, mas que depois que entraram na onda dos editais passaram a só fazer trabalhos para o SESC, a prefeitura y otras cositas mas. Agora continuam os amigos mas mas os trabalhos são sempre com um objetivo artistico, e quando eles dizem artistico, eles não têm medo de falar de grana. de viver de arte ou de princípios e questões éticas.

enfim, um papo meio de boteco, mas, quer fazer, vai lá e faz!

e um grande beijo pra você

Nicole Lima, em 18/11/2008:

oi daniel!
vc sabe que vc tem razao? essa vida atrás dos googles é meio esquisita, ainda mais pra mim, que acredito que pra bom escritor meia página basta.
por outro lado eu tenho aprendido muito com os editais, o legal de escrever projetos é que de alguma forma eles nascem e tomam corpo, aí mesmo quando nao dá em nada, dá em alguma coisa que é justamente o pontapé inicial para eu arregaçar as mangas e colocar a mao na massa.
:)
o texto eu escrevi um pouco por mim, que tive insonia no domingo, outro tanto pelos amigos que ouço reclamar sempre. mas tb porque gosto de colocar as conversas de boteco na mesa, me sinto melhor sendo humana quando estou dividindo minhas humanices com outros.

Paulo Koehler, em 19/11/2008:
No mesmo clima dos “excluídos” do reconhecimento social ao que fazemos, envio este “versinho” do João Cabral de Mello:

” Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e o não fazer
mais vale o inútil do fazer…”

quer comentar tb?

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crítica: os gemeos - vertigem? 2008

por Nicole Lima

Hoje, domingo, museu. Ainda não havia visto as novas exposições que abriram há poucos dias: No Tempo das Bienais - Yolanda Mohalyi, Katalogue XXL, e Nise Silveira: retratos de uma psiquiatria. Tinha ido pela última vez à abertura de vertigem - os gemeos dos irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, que, aliás, é a única das exposições a figurar entre as  “recomendações” da Revista BRAVO deste mês, uma pena… Não que os gemeos (assim, sem acento) não sejam sensacionais: “Recentemente, grafitaram a Tate Modern de Londres e o castelo Kelburn, na Escócia. Em dezembro, estarão. (Tcharam!! Rufem novamente os tambores, attention monsieurs e madames…) no Louvre“. Nem que a minha opinião valha mais que dois centavos nesse caso, mas a vertigem que me causaram não passou de um módico desconforto, tanto pelo amarelo excessivo quanto pelo barulho da maldita bateria.Antes que me atirem as pedras: ora, são divertidas as figuras, as lâmpadas coloridas, enfim, só não entendo que tantos furores causam esses dois rapazes que dividiram um útero e agora dividem pincéis. É só. Dei meia volta e fui me consolar com o Iberê , na sala ao lado. Este sim, vertiginoso, obrigada. Poderia passar horas ouvindo o silêncio dos quadros da última sala. Das novas, passarei mais tempo com Yolanda Mohalyi, excelente.

outros comentários:

Fernando Cesar, em 11/11/2008:

Hhahahah… Adorei a forma como tratou com o bom humor de sempre a “tao aguardada” exposiçao dos gemeos!!

Bjaum!

Fernando

Camilla Carpanezzi La Pastina, em 09/1/2008:

Tive exatamente a mesma sensação ao sair da exposição dos Gêmeos e entrar na do Iberê. Uma experiência fortíssima. Sensação física de ter levado um soco no estômago. Ô trabalho forte.

 

Até, Camilla.

Saudade em Terras D’água 2008

Semana de águas (as que caem do céu e as que pulam das calçadas pra dentro do sapato). Ontem, entre a terceira chuva e a décima calçada, vi Saudade em Terras D’água, da companhia francesa Dos a Deux : erapra ser uma dessas coisas que a gente vê porque um amigo convidou e disse que era bom, aí vamos lá, esperando poder depois responder à pergunta: Gostou? Gostei. Mas dessa vez perdi a fala: de tão bonito, chorei e ri desavergonhadamente na terceira fila, sem me dar conta de que perdia o chão junto com o mar, desaparecendo pelo canto esquerdo do palco à medida que as luzes azuis do teto se apagavam, até só sobrar uma, e depois nenhuma. Emudeci como o espetáculo que não tem palavras de falar com a boca, mas tem história de ver com os olhos (d’água). A peça quase não tem sons, é feita de luz e movimentos sutis, comunhão de 3 corpos e alguns objetos que se encaixam em perfeita sincronia, enquanto uma alma de lá conversa com outra do lado de cá, e então estamos de acordo.

(foto de divulgação do site oficial da companhia dos-a-deux) 

Tarsilofagia - Nicole Lima 2008

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Semana passada Luana Navarro Comentou: Magnum, 60 anos, e daí? Mais tarde, conversando com a própria Luana e outros amigos, chegamos à conclusão de que não se tratava de uma crítica àquela exposição em particular, mas a um modelo de curadoria, no qual uma serie de imagens consagradas são dispostas lado a lado sem uma questão, ou mesmo um viés que inspire um diálogo. E aí voltamos para casa (in?) satisfeitos por ter reencontrado as imagens que já conhecíamos.

Mas a pergunta persiste: e daí? Essa pergunta me ocorreu novamente quando fui “ver a Tarsila” no MON, domingo passado. A proposta de “um percurso afetivo” muito pouco parece afetar os espectadores que transitam inalterados pelas obras, parando apenas para ver o quadro “antropofagia” e “a negra”, ícones da obra da artista e, não coincidentemente: ambos no catálogo da exposição. Aceito o argumento de que “ver ao vivo é outra coisa”, mas o que retemos de todas as outras obras que estão lá, também ao vivo (ou aos mortos)? Talvez seja da natureza humana, como ir ao Louvre para ver a Monalisa ou ir ao teatro da unicenp para (não) ver Juliana Paes.

Ainda prefiro acreditar que as verdadeiras exposições, aquelas que se propõe a mais do que nos recontar verbetes enciclopédicos (hoje wikipédicos), essas sim, nos tomam de assalto. Às vezes são singelos e agradáveis sustos, como quando me deparei com essa janela, que nem faz parte das exposições que estão no solar:
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(parede externa do solar do barão, feita por fernando rosenbaum e cleverson salvaro, talvez para ser descoberta por quem parar para olhar pela janela)

Dizia o manifesto: “O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. Só a Antropofagia nos une. Tupi, or not tupi that is the question.” Será?

comentários:


Deborah Bruel, em 27/07/2008: também fui “ver a Tarsila” no outro domingo e acho que sua questão aponta para duas coisas, uma é o quanto os “espectadores que transitam inalterados pelas obras” são afetados, ou melhor estão interessados naquilo que está ali, e a outra que se desdobra disso é como a proposta de “um percurso afetivo” da exposição desperta o interesse desse espectador. Bem, daqueles que vão lá apenas para se deparar por alguns segundos em frente a”antropofagia e a negra”, e seguem seu passeio como se estivessem no shopping, só tenho a dizer que ao menos o museu entrou na lista de opções de passeios dominicais do curitibano, ainda bem!

Agora quanto à proposta, confesso que”pelo amor de deus” será que o MON não tem uma equipe decente de montagem? O que é aquela luz? uma vergonha! Não foram poucas vezes que vi pessoas fazerem como eu: olhar para a obra e imediatamente olhar para a luz dirigida à ela, já que fazia uma”faixa amarela logo abaixo da pintura”, ou quando havia uma sombra enorme sobre a pintura, ou ainda quando uma obra recebia uma luz muito mais forte que a do lado, talvez uma vontade de hierarquização da qualidade dos trabalhos pela curadoria?!

Sem falar da disposição das paredes em angulo oblíquo, que obrigam aos observadores amontoarem-se nos cantos para ver alguns trabalhos. Bem, confesso que fui embora muito aborrecida com a falta de bom senso, não que eu ache que o espaço expositivo tenha que ser proposto aos moldes do “cubo branco”, mas o problema é quando este mesmo espaço se propõe como um parque temático de mau gosto e interfere negativamente. Só consigo lembrar daquele amarelinho azedo! e fiquei com muita vontade de encontrar com a Tarsila em outro lugar.

Mariana, em 01/08/2008: bem, o espectador ser tocado ou não pela montagem não me parece o problema em si. mas, sim, o fato do sujeito ir à exposição como vai ao shopping. independente do viés ou recorte proposto pela curadoria, cada um deve buscar por si o diálogo com o que está ali pendurado nas paredes. não esperar que um catálogo ou panfleto dite o que deve achar desta ou daquela fase do artista em questão. na exposição é possível enxergar um caos proposital, algo que combina com a artista, sempre livre de classificações

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repetições - nicole lima 2008

Uma semana depois, cinco anos mais tarde (ou seis?): o espaço é um desconhecido de 38 anos. Cá estou, virando a mesma esquina, correndo como uma criança para ver você, que encontro com as mesmas mãos apoiadas na cintura, e é como se, ao invés de cruzar um continente, você tivesse apenas saído do quarto e ido até a sala, cansado de estudar. Aí você me pergunta como vão as coisas, eu digo que ainda não me acostumei com a gaveta dos talheres e que sempre abro a porta da lavanderia para o lado errado.

Tento reorganizar os móveis e objetos em ordem autobiográfica. Penso em high-fidelity. Olho para o meu quarto novo e vejo que coloquei os móveis na mesma exata configuração do quarto velho. Penso no painel do João e nas imagens que explodiram do fundo da memoria para uma parede que só ele via. Penso nas coisas que só eu vejo, como as suas mãos de antes de hoje, os caracóis que você não tem mais no cabelo e a vista da janela que antes estava 5 andares abaixo, 10 anos atrás, 30 metros à direita. Agora tenho mais janelas com vista para o infinito que vão de um japão a outro. Elas não cabem nos meus olhos (penso em Wim Wenders, logo, penso em você), então me volto para o chão para ver melhor, penso em Felipe e procuro um horizonte perdido num paralelepípedo do meio fio. Então sigo olhando as pessoas que andam pelo parque, esperando secretamente vê-las desenhar os mesmos círculos amanhã.

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Ocupação - nicole lima 2008

Nas semanas que passaram vi pessoas que dançam no palco, na rua, em vitrines. Cartazes, azulejos nas calçadas. (logo subirão até os muros, onde estará?). Porque dizem que o espaço público virou esse espaço de desafetos, onde nada é palpável, onde tudo é tão rápido quanto ontem e corpos se atravessam como se fossemos feitos de ar. Mas será que não é porque a densidade é tamanha que não percebemos onde começamos, onde terminamos? Palavras recorrentes: ocupação, inserção, intervenção, tocar, reverberar. O outro, o outro, o outro. E se reverberar é esse som que a gente emite e volta não o mesmo som. É um som de coisa ferida, transformada ainda que seja a custa de um murro contra a parede seca. Percebo que até este texto está ocupado por vozes de afetos, de coisas que me afetaram profundamente. As linhas se fundem entre um nome e outro e formando veios que atravessam meu corpo em zigzag. Começou com ela, com a primeira vez que ouvi a palavra afeto, dita da boca dela. Ela que procurava esse espaço, do verbo afetar. Aí o espaço sumiu e ela me deixou com o que sobra da gente. Esse cheio, esse vazio. Esse buraco que a gente preenche num sopro. Um ano depois, perguntei para ele o que era amor, num tom de desconfiança: vai dizer que você sabe o que é amor? Ele que não come uvas sem sementes, é só o que eu sei, porque os caroços machucam a boca. Ela que come o pão sem as cascas. Ele que me esmaga e eu peço pra parar, com medo de morrer, mesmo sonhando que não pare nunca. Ele respondeu: amor é quando uma pessoa cava um buraco na outra. Pedi um texto para me explicar, porque aprendi que as coisas que a gente não pede nem sempre são visíveis. Ele me devolveu uma ocupação.

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2007 - carnaval curitiba 2008

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Fritando Bacon 2008

Por Nicole Lima

Hoje, no Caderno G, me deparo com a seguinte matéria, na coluna de Elio Gaspari: “Uma grande semana para a boa pintura”

Ponho-me a ler com natural entusiasmo, mas a decepção vem já na metade do primeiro parágrafo: “Quem viu o primeiro “Batman” haverá de lembrar. Bacon é o autor daquele quadro que o Coringa (Jack Nicholson) não deixa destruir durante seu ataque ao museu de Gotham City.”

Batman? …Ok, você vai dizer que Bacon não é nenhum Leonardo da Vinci, que bem mais gente assistiu aos filmes do Batman do que foi a museus. Concordo, vá lá. Mas justamente por isso: Se você se propõe a escrever uma coluna sobre artes plásticas no caderno cultural do maior jornal do estado, trate o leitor com um mínimo de respeito. Ou as pessoas que não sabem quem é Francis Bacon devem assistir ao filme do Batman?

No segundo parágrafo o colunista resume a biografia do autor: Marginal e jogador, Bacon usava lingerie feminina, maquiava-se e retocava o cabelo com graxa de sapato. Anticomunista radical, acordou numa ressaca certo de que os russos haviam invadido Londres. Noutros porres, pintou algumas de suas obras-primas.”

O desenrolar da coluna nada mais traz do que a notícia de que uma das telas de Bacon foi vendida por US$ 86 milhões no mesmo evento em que outra, de Lucien Freud, alcançou a marca de US$ 33,6 milhões, tornando-se a obra mais cara de um artista vivo comprada num leilão, a qual Gaspari descreve com a seguinte frase: “uma mulher gorda e tenebrosa, pintada por seu amigo Lucien Freud (neto do criador da marca)”

No parágrafo seguinte ele analisa comparativamente os dois artistas: “Ele e Bacon têm uma característica comum: atravessaram a metade do século 20 sem se aproximar da arte abstrata. “ Como se não ter sido contaminados pelo abstracionismo fosse um feito, ou uma dádiva. Ou ainda: Como se isso bastasse e fosse base sólida para aproximar ou distanciar definitivamente a obra de dois artistas. Assim poderíamos quiçá, já que estamos tratando da população medíocre que lê os cadernos de cultura, escrever um livro de auto-ajuda: “para entender toda a arte do séc. XX em duas filas: abstratos para a esquerda, realistas para a direita.”

Na coluna, que deve ter sido escrita em São Paulo, não há qualquer menção à exposição de Bacon e Freud (e Moore) que ainda está aberta à visitação no MON, aqui em Curitiba. Falha do editor? Talvez. Falha grave? Talvez não, afinal, só o Jack Nicholson vai ao museu, que fica em Gotham City.

Para finalizar, depois de tantos elogios, o autor deixa a seguinte sugestão: “Quem tiver meia hora de domingo para perder com Bacon e Freud pode visitá-los na internet. Melhor do que perder tempo com mentiras sobre os dossiês do Planalto.” Bom, se essas são as opções que nos restam para o domingo… caros leitores, eu diria que melhor mesmo é assistir ao filme do Batman, aliás: o filme é do Tim Burton.

(Se quiserem apreciar o coringa destruindo o museu de Gotham City, aqui está a cena no youtube):

 

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Comentários:

Em 20/07/2008, Luigi De Franceschi: Desde quando o Caderno G é um bom caderno de critica as artes? Nunca li esse caderno algo interessante criticando cinema, literatura, musica, pintura e teatro. São todos bitolados e dependentes das criticas do estadão, O Globo e a Folha. Nesses jornais, já li muitas críticas coerentes, explosivas e o principal, bem articuladas. Mas mesmo esses jornais estão sujeitos a matérias medíocres. Ai vem a Gazeta e deu um copy - paste” e jogou a matéria lá. Nem críticas eles sabem escolher….

Em 19/05/2008, Mauricio Aguiar: É lamentável a mediocridade daquele que considera-se o maior jornal do estado. Não é a primeira vez em que somos mau-tratados com matérias como essa. Parabéns pela iniciativa, Nicole.

Em 19/05/2008, Luana Navarro: Eu não tinha visto a matéria até então Nicole e fiquei desanimada com o texto do Elio Gaspari, é visível que o cara se baseou somente na internet para produzir o texto e o mais triste é ao invés dele estimular os leitores a sair de casa e irem até o MON ver a exposição o cara me sugere “perder” meia hora do domingo na internet. É esse tipo jornalista que vai escrever um dia sobre nosso trabalho isso me preocupa. A falta de jornalistas especializados na área de cultura afasta cada vez mais o
público dos museus e exposições, até porque este jornalista provavelmente não é um cara que procura ver o que acontece na cidade. Correção: O Élio Gaspari é da agência O Globo, naturalmente o erro é do editor da Gazeta que não leu o texto do cara, porque ele poderia aproximar o conteúdo do leitor daqui citando a exposição do MON. enfim…

Em 28/05/08, Deborah Bruel: Pois é Nicole, há tempos que não temos uma crítica inteligente e especializada na mídia impressa, e quando aparece algo ou é uma mera descrição da exposição ou esse desastre como o Élio Gaspari, com um texto ruim, preconceituoso e medíocre. Eu sinto muita falta de textos consistentes e que repeitem o leitor, parabéns pela iniciativa.

Em 07/08/08, Mariana: furada do editor. elio gaspari não se intitula crítico de arte. é
comentarista político. sua coluna não deveria estar estampada no caderno G e, sim, no caderno de política. por isso ele solta o (infeliz) petardo: “Quem tiver meia hora de domingo para perder com Bacon e Freud pode visitá-los na internet. Melhor do que perder tempo com mentiras sobre os dossiês do Planalto”. e a coluna dele segue falando de corrupção, Bush e privatização. caso nada incomum (no gazeton) de pessoa errada no lugar inapropriado.

gostaria de comentar? escreva para nós!

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enquete: vídeo arte… faça, mas não me faça ver? 2008

No zine 001 levantamos a seguinte questão: Vídeo arte… faça, mas não me faça ver? Quais os limites que o unem ou o separam do cinema? Todas as mostras de arte agora têm agora obrigatoriamente um kit drywall, cortina de veludo e projetor? Novas Possibilidades? Críticas? Sugestões? O que acharam dos vídeos que estavam no MAC, na Andrade Muricy e no Solar (este ainda está)? E na mostra vento sul, alguém foi?

A pergunta é mal educada, preconceituosa, e foi colocada com um alto teor de provocação. Eu poderia ter dito logo o que penso sobre o assunto e levantado outras questões, mas a intenção não era discutir o tema a partir da minha opinião pessoal (e ouvir “concordos” e “discordos”) e sim convidar ao debate, puramente. Por outro lado se eu apenas tivesse perguntado: “oi, o que você pensa sobre videoarte?” Duvido que alguém se comovesse a ponto de responder. Então, escolhi colocar dessa forma tosca, mesmo correndo risco de ser apedrejada, com o intuito de mover alguém e iniciarmos uma discussão séria.

Bom, ainda que eu tenha colecionado desafetos ao longo da semana e talvez perdido o respeito do meu colega de pós graduação para todo o sempre, fiquei muito, MUITO feliz em receber a resposta do Daniel Duda:

Como não me aguento vou me debruçar sobre o assunto mesmo sendo suspeito.

Primeiro, acho que a redação da própria enquete demonstra claramente a opinião de quem a escreveu; portanto, não quero levantar a defesa da videoarte, mas apenas questionar a natureza e o fim dessa enquete, pois talvez esses apontamentos se aplicam igualmente à fotografia e ao próprio cinema, não? Portanto, o que deveria estar em pauta é a reflexão sobre o suporte, que por sua vez carrega a questão da popularização dos meios digitais, que por sua vez, acarreta em… uma grande produção de trabalhos ruins. Em qualquer meio.

Pensei sobre a sentença “videoarte: faça mas não me faça ver” e me perguntei pq a mesma pergunta não poderia ser feita em relação ao cinema? Assim, como penso em vídeo, trabalhando e pesquisando o mesmo, mas também trabalho e vivo com o cinema, acho muito mais grave a proliferação de cine-chatos e da massificação de roteiros rasos que me obrigam a ficar 2 horas na frente da TV, vendo mais do mesmo.

Acredito que se a proposta do artista é colocar seu vídeo dentro do museu, trazendo reflexões que quase sempre são questionamentos advindos de outras formas, principalmente fotografia e pintura, apenas se utilizando do vídeo como suporte, tudo bem! Na minha opinião, a pergunta da enquete foi uma forma extremamente rude e infeliz de levantar a questão. Não entendi e
gostaria que fosse explicado melhor o que significa o “kit” sugerido. Sugere-se que o vídeo é moda? Não agrega entretenimento como o cinema, portanto, é chato?

Agora, se a intenção é entrar no museu buscando entretenimento, informação fácil, ou algo do gênero, sugiro uma das salas de cinema da cidade.

Há artistas que fazem um vídeo dentro de sua obra, e há artistas que trabalham quase unicamente com o vídeo como suporte. A mostra vento sul não deve ser utilizada como parâmetro para discutir o assunto, uma vez que não representa o que está sendo feito em video no Brasil - quem dirá em termos latino-americanos. Foi organizada por pessoas que possuem outros interesses alheios à arte, e não buscam a reflexão séria. O resultado disso foi visto.
Quer dizer, visto por poucos.

Peço desculpas se a intenção da enquete era outra, mas como artista que trabalha com vídeo, fiquei ofendido com a proposta.

Duda

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Nicole Lima, e mais dois centavos:

Bom, agora um passinho à frente por favor, que eu também preciso depositar meus dois centavos e dizer o que penso disso tudo. Aliás, venho pensando nisso já desde a ultima bienal quando escrevi: “Eram mais de 40 vídeos. Não sei se consegui apreciar uma porcentagem digna, mas acho que alguns conceitos persistem: o que não é lixo (lixo mesmo, aquele que a gente separa em casa) reciclado do Duchamp não é arte. O que não é vídeo não é arte. O que é vídeo de lixo, isso sim é arte. Mas há coisas boas. Sempre há”.

E havia: fiquei encantada com um vídeo de uma boliviana, a Narda Alvarado, que se chamava “from the atlantic with love” em que ela entregava um balde de água do mar do oceano atlântico para oficiais da marinha do oceano pacifico, em cerimônia solene. Mas o que mais me intrigou foi que, além do vídeo, ela apresentou uma série de idéias (good ideas, bad ideas, reasonable ideas), algumas eram sugestões de performance e outras de vídeo, em forma de pequenos quadros pintados que ela pendurou na parede assim:narda-alvarado.jpg

O trabalho de Narda me fez ter vontade de ver/fazer as idéias que ela propõe, mas em um segundo momento pensei: pra que? Cairia no que o Duda colocou: entretenimento. E por isso achei genial que ela tivesse “não feito” as próprias idéias. Porque a maioria não ultrapassa a execução da proposta inicial: vamos fazer um vídeo sobre uma mulher comendo uma santa de chocolate? Sim, faça, mas aí eu vou entrar, ficar (talvez) um minuto, sentir náusea e sair. De qualquer forma, parabéns, já acho genial ter sido algo de que eu me lembre até hoje.

De fato, há poucas coisas que realmente sinto vontade de ver até o fim, até por saber que não vai me mostrar nada do que já não tenha ficado claro nos primeiros 30 segundos. Ou será que vai? Mas aí vem outra questão que ontem mesmo o Ricardo Machado levantou: se não tiver nada de bom no começo, nem o curador vai ver até o final. Porque quando a gente vai ao cinema, já se preparou: leu a sinopse, sabe que o filme é uma comedia romântica com o Hugh Grant, gosta do Hugh Grant, escolheu o horário, a companhia, estacionou o carro, pagou e foi ao encontro daquela historia, que vai assistir sentado, comendo pipoca em uma sala escura e com tratamento acústico adequado. Mas se eu faço um vídeo e coloco em uma exposição de arte, eu tenho que pensar o espaço e o espectador de outra forma. Primeiro porque ele não está esperando o que vai encontrar, e isso pode ser usado contra ou a meu favor. Segundo, porque se houver muitas pessoas em volta, fazendo fila pra entrar em um cubiculozinho de drywall com uma tela de plasma e um banquinho, duvido que alguém pare pra ver. E aí entra o tal kit: porque se eu entregar só um DVD, e eles mostrarem como se fosse um quadro na parede, e se eu não pensei nisso, azar o meu (vocês já cronometraram quanto tempo passam diante de um quadro na parede?). O terceiro e último ponto, é justamente em relação ao tempo, que aqui é o tempo do expectador. Um vídeo impõe sobre o expectador um ritmo de leitura: se negligenciado, pode ser rápido demais, ou lento demais, ou longo demais, ou não deixar espaço para pensar. Em inglês há uma expressão que se chama “captive audience” pra designar situações em que temos que ouvir alguém falar sem poder sair. Mas aí, como disse o Felipe Prando, que eu importunei outro dia com esse mesmo pensamento: problema seu, a obra é a obra, lê e vê quem realmente quer. Pode ser, pode ser. Mas agora, já que o Duda veio aqui e falou, mesmo suspeita, também vou falar: O trabalho dele, que está no Solar é um exemplo de como o espaço de projeção foi concebido em conjunto com a produção dos vídeos. Há um percurso, há uma questão e ele me faz caminhar até lá e ouvir tudo até o final (porque “o risco, também é uma ilusão”).

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Duda, em resposta, em 05 de maio de 2008:

Aeeee Nicole

Se eu soubesse que vc ia me publicar eu penteava meu cabelo antes…
Primeiro, é óbvio que nós continuamos amigos. Segundo, de fato se voce colocasse a pergunta de outra maneira meu cérebro nem ia terminar de ler a sentença. Terceiro - e eu devia ter dito isso no primeiro email mas achei que já estava longo e chato demais - é óbvio que eu concordo com quase tudo que voce colocou, até pq eu tambem acho que boa parte do que é feito em video hoje é chato e poderia ser feito de uma maneira menos sacal.Também
acho que quase sempre o visitante não está disposto a despender o tempo que o artista requer para assistir o video até o final, e isso acaba no problema do suporte: será que o artista não deveria ter feito um filme? ou quem sabe apenas tirado uma fotografia (menos é mais, já dizia a Milla…).

Mesmo assim acho que a última coisa que deve ser limitada ou reformada de alguma forma é o processo criativo. Mesmo que o público não dedique o tempo necessário para assimilar a obra, imagino que não será esse fator a determinar que o autor transfigure sua obra para algo mais “palatável”. Enfim, acho que temos as mesmas preocupações, e podemos continuar amigos…

Duda

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Nicole, em resposta, em 05 de maio de 2008:

Oi Duda!
hehehe
ufa
:)

eu já sabia que ia gostar do seu primeiro email, mesmo antes de ler, só por eu ter conseguido fazer com que vc se importasse a ponto de responder. Porque se vc se importa, e eu me importo: pronto.

o seu trabalho realmente me marcou, eu ja tinha comentado isso com você e com varias pessoas, mas nem é só o “gostei ou nao gostei”, é o como vc fez a gente chegar até lá. Vc tem razão quando diz que a maioria das coisas se resolveria com uma unica imagem. (good ideas, bad ideas, reasonable ideas), fora as coisas que nem precisam existir, mas essas a gente deixa pra lá e continua passando batido, como bons cidadãos.

Além disso, tem muita coisa que na minha opiniao está mais pra documentario da obra ou do artista, do que para a obra em si. Acho valido em casos como o Yves Klein — que está morto e não pode refazer a performance dos quadros de fogo, ou das mulheres pincel — mas há outros em que fica meio didático, e se a obra está ali, precisa de um video para explicar? ok, pode ser que precise, entao que incorporem, ao invés de separar. como eu disse: pode ser, pode ser. TUDO pode ser (bom ou ruim, dar certo ou dar errado).

Sobre ser palatável, naaaaaaaao, claro que nao, mas precisa comunicar, e para isso eu preciso acessar o meu interlocutor. se a minha obra é um video e ninguém viu, nao houve comunicaçao, então a minha obra nao existe.

o processo de quem é realmente criativo nunca vai se limitar ao suporte. Talvez se limite ao incentivo $$, mas isso dá pano pra outra enquete…

:)

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Nicole Lima, sobre genes defeituosos: 2008

“Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos”

(retrato do artista quando coisa - Manoel de Barros)

Dia desses uma amiga disse o seguinte: “Eu queria participar do projeto, mas eu não sou artista”. Aí lembrei do João, que disse na sua aula inaugural em uma universidade: “Fotografia não é arte.” E de uma entrevista com um fotógrafo de natureza que me respondeu quase defensivamente à mesma questão dizendo que o que fazia era apenas “documentar”. E que na semana passada me perguntaram: “Mas esse é um projeto de design ou de arte?” E hoje ainda, no msn com outro amigo, o Orlando: “você sabe, eu sou retrógrado, vivo mentalmente nos anos 20, e não estou inteiramente convencido de que cinema seja arte…” Eu poderia citar exemplos ad infinitum, até porque essa questão sobre os limites e deslimites da arte é mais velha do que todos nós. Mas não se trata disso. O que me intriga é justamente esse incômodo, essa insistência.

Quase sempre tenho a impressão de que por trás da frase “ah, mas eu não sou artista” há uma percepção de que nós artistas (sim, eu sou artista, ar-tis-ta) nascemos dotados de um gene especial 406×765hktyu-899-yy/xxx, que os outros seres humanos “normais” não têm. Assim como separamos os que nascem com orelhas de abano do time de futebol, e os que têm dentes protuberantes dos concursos de beleza, a sociedade se organiza entre os que têm ou não têm o dito “dom” da criatividade, ou a habilidade de empunhar um lápis sobre uma folha em branco e desenhar virtuosamente. Mas como sabemos que exercitar o tal gene defeituoso demanda tempo, ser artista raramente se faz uma atividade rentável. Ou seja: é melhor evitar. Aí nos agarramos na borda da piscina, para nadar onde não dá pé sem nos afogar: Quem gosta de desenhar, faz arquitetura. Quem gosta de escrever, faz jornalismo. Quem quer ser fotógrafo, estuda comunicação. Quem estuda arte mesmo só pode ser porque mora com a mãe e não quer trabalhar, coisa de vagabundo. Trabalhador que se preze tem curriculum, artista tem portifolio (e no flickr, porque imprimir custa caro).

Mas também tem, claro, o preconceito às avessas. Nas terças feiras eu dou aula particular de inglês para um juiz e para esposa. Eis o preconceito: Aulas de inglês? Mas você não disse que era fotógrafa? Em dose dupla: juiz? Argh. Esse povo acha que pode passar por cima de todo mundo, só porque é juiz. E não adianta nada eu contar pra vocês que ele é juiz mas é legal, que estuda música e vai mergulhar sempre que sobra um tempo, que vocês já vão logo rebater com um “ah, mas é exceção”. Até eu, sempre que vou prencher fichas de cadastro, nunca sei o que escrevo no item profissão: arquiteta, urbanista, professora, pesquisadora, coordenadora, fotógrafa, designer, modelo de comerciais de margarina, ex-mulher de piloto de helicóptero, escritora… Ahhhhhh, desisto. Agora faço graça: cada vez preencho com uma coisa diferente, de acordo com o meu humor ou a quem devo impressionar.

Não acredito que essa percepção do ser humano que teima em se nomear e se dividir entre ser criativo ou funcional vá mudar (pobres designers, arquitetos, publicitários, documentaristas…). Mesmo que mudasse, não seria uma evolução: continuaríamos nós mesmos, vistos de outro ângulo, já que andamos em círculos. Mas fica o convite à reflexão: quem é você e o que o torna diferente de mim?

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